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Senti um vento gélido, cortando o acampamento. Não se tratava de um frio comum, mas a sensação de magia maligna, que estava comandando as criaturas. Caomil esticava seu arco, a corda retesada pronta para matar. O olhar frio do elfo não piscava ou olho-a-olho com o líder da matilha.

Os animais avançavam, passo-a-passo. Logo nos vimos cercados. Eram mais de quinze estávamos perdidos. Marcos começou a rezar, pedindo ajuda e inspiração para seu Deus.

Eu comecei a pronunciar palavras antigas, que surgiam em minha mente. Sentia as energias mágicas se acumulando a minha volta. Estava pronto.

O felino, líder dos lobos, atacou. Junto dele, os três lobos corriam. Ele tentou saltar sobre nós, mas seu salto foi refreado pela flecha de Caomil, certeira, precisa, letal. Exatamente no centro da cabeça do animal, que caiu no chão morto na hora.

Os três animais pararam, tropeçando. Obviamente desconcertados com a velocidade e letalidade do Fedalkin.

Mas, não foi suficiente, duas das outras três matilhas atacaram.

– Anóun, et acres! – Gritei em direção a uma das matilhas.

Os lobos ganiram, alto, sentindo uma dor lancinante em seus estômagos. Seus pés enraizando no chão. – Estavam virando árvores. A pedra dos amantes brilhava, descarregando na magia poderosa a energia mágica que armazenara.

Mas outra pantera líder, que estava mais próxima de mim, continuou seu avanço e me atacou. Não havia muito o que eu pudesse fazer, a não ser saltar para o lado, perdendo a concentração de minha mágica. Eu havia retardado os lobos, mas isso não os pararia.

Meu salto não foi muito bem sucedido. A pata da pantera rasgou a carne da minha coxa, eu não poderia me levantar. Sangrava muito. Seria mais difícil atacá-la agora.

Caomil também saltou, numa acrobacia incrível. Ao cair no chão, apenas pude ouvir o zunido de sua flecha e um som abafado vindo do felino. Talvez por isso o poderoso animal não tenha me matado. A cabeça da pantera sangrava, com uma flecha precisamente lançara em seu centro, mas na parte traseira.

Os três lobos que acompanhavam a pantera atacaram Caomil, derrubando-o no chão. Isso estimulou a terceira pantera a atacar, ia na direção de Marcos. Aparentemente as orações do frei estavam funcionando, pois ela avançava devagar, como se temesse alguma coisa.

Os lobos atacam Caomil furiosamente, mas o elfo esquivava-se com agilidade incrível. Ele estava em dificuldades, um dos animais segurava seu braço direito, o esquerdo, já com uma faca sacada, tentava atacar os lobos. As pernas agarravam a cabeça do terceiro, sufocando-o.

Foi quando ouvimos um grito vindo da mata, um grito que não era humano. Um grito violento, terrível, que nunca havíamos ouvido antes.

 

Mock estava chegando. Mas não era Mock, o guerreiro.

Totalmente transformado, era Mock, o ghoul.

 

E ele clamava por sangue.

Criaturas da noite

Foi mais ou menos uma semana depois que começamos a avistá-las. No início, apenas uma movimentação estranha, depois uma presença constante.

Ainda rumávamos para o norte, seguindo a intuição de Marcos. Caomil desconfiava que seguíamos em direção às ruinas de Ood, uma terra temida, devastada e desabitada.

Numa das noites, Mock havia saído para caçar, como fazia esse horário. Marcos dormia em sua barraca, enquanto eu e Caomil conversávamos. Era uma noite fria. Falávamos amenidades e subitamente o elfo ficou quieto. Olhava intensamente, para à distância.

– O que vê?

Ele estendeu a mão para silenciar-me.

– Você logo as verá também. Mas apenas percebo seus olhos vermelhos na escuridão. Seus amigos necromantes foram mais rápidos do que calculei.

– O que são?

– Criaturas da noite. Ainda não sei qual escolheram, mas posso sentir sua presença nos rondando.

Era verdade, havia ali uma presença e eu também podia senti-la. O sono de Marcos também se agitava, e o frei frequentemente acordava durante a noite, e orava em sua tenda.

– Ontem também as senti durante o dia – comentou Caomil. – senti a movimentação diferente de alguns pássaros da floresta, posso jurar que alguns deles nos espiavam.

– Não vi corvos ou gralhas.

Caomil sorriu. Um sorriso discreto, como sempre.

– Os necromantes não usam só criaturas medonhas e assustadoras, meu amigo. Pode ser um belo rouxinol, ou um pardal. O importante é que a criatura atenda a seu propósito.

– Então, a criatura da noite poderia ser uma simples coruja?

– Normalmente sim, e acho que há algumas noites atrás eram. Mas hoje não é isso que estou sentindo. Elas estão em maior número e pela proximidade de seus olhos, creio que sejam em bando. Prepare suas armas, pois creio que essa noite mesmo irão atacar.

 

Tratei de acordar Marcos e me preocupei por Mock não estar ali. Uma ou duas horas depois, escutávamos os rosnados, cercando a barraca. Eu só já podia sentir a movimentação de vultos, ainda distantes, nos cercando, mas Caomil foi mais preciso.

– Três deles parecem lobos, ou poderiam ser worgs. Um deles é felino, mas não posso dizer se é uma pantera, ou uma onça. Está claro que estão sendo controlados, ou jamais andariam juntos.

Caomil pegou o arco, e mirou na direção dos bichos. Parecia hesitante em fazê-lo. Começou a pronunciar algumas palavras num idioma que parecia o élfico, mas eu era incapaz de identificar.

– Marcos começou uma oração silenciosa. Tudo indicava que as criaturas atacariam em breve.

Agarrei meu bastão, senti os músculos do meu corpo se enrijecerem.

– Sorte termos um Fedalkin conosco – falei, tentando aliviar a tensão.

Ele sorriu novamente.

– O único problema Caldor… – disse Caomil, aparentemente tranqüilo – é que descrevi para você apenas um, dos quatro bandos idênticos que estão em volta de nós. E eles estão cada vez mais perto.

Madrugada fria

Era uma madrugada e já começavamos a sentir a mudança do clima. A temperatura a essa hora, antes do sol nascer, era gélida. Mock não estava conosco, provavelmente caçava como sempre. Marcos ainda dormir profundamente, mas acordei inquieto.

Levantei-me a fui respirar um pouco de ar puro, fora da barraca. Lá, ao lado de uma pequena fogueira, estava Caomil, quieto. Seu jeito circunspecto me atormentava.

Sentei ao seu lado, sem falar nada, peguei um pouco da água quente e coloquei num copo.

– Trouxe um pouco de chá dos elfos – me falou, esticando um pequeno saco. – basta colocar o saco todo dentro do copo.

– Assim? – perguntei aceitando o pacote e mergulhando-o inteiro, dentro do copo.

– Isso mesmo. – ele respondeu.

Ficamos ali, bebendo por alguns minutos. Ele olhava à distância, como se procurasse algo.

– Seu amigo, o ghoul. – falou novamente – saiu para caçar de madrugada como faz sempre. Dessa vez o observei e vi a transformação, é assustador. Vocês não temem que ele… – deixou a frase no ar.

Dei de ombros.

– Marcos confia nele… e eu em Marcos, eu acho.

– Ele é um lutador formidável. Não viu como os elfos o aplaudiram em nosso duelo?

– O aplaudiram? – perguntei incrédulo – pensei que estivessem lhe aplaudindo. Afinal, você o venceu com 3 golpes.

Caomil sorriu. Era raro ver o elfo com uma expressão tão leve. – Caldor, a maioria cai no primeiro golpe. É a arte secreta dos Fedalkin. Seu amigo conseguiu suportar não um, mas três deles. As apostas mais ousadas diziam que ele aguentaria apenas dois. Prefiro não pensar que um dia terei que encara-lo, caso ele esteja transformado. Sua ferocidade é centenas de vezes maior que a que vimos na arena.

– Mas é isso que o preocupa – disse Marcos, saindo da barraca. Ainda tinha uma cara de sono, e andava cambaleante.

– Espiando a conversa alheia, amigo? – perguntei sorrindo. – o que faz de pé tão cedo?

– Acordei ainda a pouco – disse-me. – Estava sonhando com o grande deus Helm. E ele me dizia que teremos dias difíceis. Tentei-me levantar umas duas ou três vezes, entao ouvi a conversa de vocês. – disse com um bocejo.

– E seu amigo está certo – disse Caomil – não é o ghoul que me preocupa.

– O que é então? – perguntei.

– A partir do momento que você usou sua mágica, Caldor, você chamou a atenção dos mesmos necromantes que o prenderam. Eles devem estar vindo em nossa direção nesse momento.

– Mas como…? – Perguntei incrédulo.

– Você ainda está se recuperando. Embora tenha muito poder, ainda o usa como um aspirante. E faz muito barulho. Não um barulho que se ouve com um ouvido, mas os magos negros já perceberam. E seu amigo, Mock, também é um alvo fácil de ser rastreado.

O céu se azulava, uma indicação de que o sol provavelmente nasceria. Tomei mais um gole de chá, pensando nessa nova informação.

– Foi por isso que Salmakya te mandou? Para me proteger?

– Sim, foi por isso. O confronto está breve, e não será nem o primeiro, e nem o último.

Fiquei preocupado. O perigo era iminente, e podia senti-lo em cada fio do meu corpo. Agora era só uma questão de tempo… pouco tempo.

Despedida

Acordei numa manhã ensolarada. Salmakya novamente olhava pela janela, apreciei por alguns segundos a sua beleza estonteante. Notei que tinha o rosto contemplativo.

– Bom dia, querida. – disse da cama, com a voz ainda estranha.

– Bom dia. – ela sorriu. Mas notei que foi um sorriso triste.

Fui até ela, a abracei a beijei na testa. Ela sorriu novamente, ficou mais claro que ela estava visivelmente chateada.

– O que aconteceu? – perguntei enquanto ainda me expreguiçava, após dar-lhe uns minutos de silêncio.

– É hoje, Caldor. Hoje vocês devem partir. – disse-me apontando as roupas, já separadas para a viagem.

Senti suas palavras como uma faca, enfiada em meu peito. Por que eu deveria sair? Minhas lembranças estavam voltando e eu estava ao lado da pessoa que, definitivamente, escolhi para estar ao meu lado, pelo resto dos meus dias.

– Você sabe… – ela continuou, um pouco hesitante, e virou-se de costas. – ambos temos resposabilidades, maiores que nós mesmos. Maiores até…

Não quis continuar, pois suas palavras estavam misturadas às lágrimas, que já chegavam. Mas pude captar o recado, “maiores até do que nosso amor”. Eu estava triste, uma revolução de sentimentos avassalava meu peito. Queria chorar e sentia raiva. Mas meu semblante não denunciava meu sofrimento.

– Eu amo você, Salmakya. – disse simplesmente.

Ela se virou, e pequenas gotas novamente mostravam seu sofrimento. Demos as mãos e ela me beijou novamente.

– Eu também te amo.

Ficamos assim, parados, por alguns segundos. A cabeça dela no meu peito, apenas sentiamos o calor de um pelo outro. Ela então levantou a cabeça, enxugou as lágrimas.

– Quero te dar um presente. – disse-me, enquanto eu me vestia.

Então colocou as mãos uma sobre a outra, em forma de concha, e pronunciou algumas palavras na língua da magia. Senti um pulso de energia cruzando a sala e indo em direção a sua mão. Ao abrir, lá estava um grande rubi.

– Esta jóia chama-se coração solitário. Está com a minha família a dezenas de gerações, desde que os elfos sequer tinham contato com os humanos. Nela, depositamos boa parte de nossa energia. Quero que fique com você.

– Amor, eu não posso aceitar. – disse, percebendo a importância da pedra – sei que é importante demais para você.

– Ela carrega parte de mim, Caldor. E através dela, saberei se está em perigo, ou precisando de ajuda. Encaixe-a em seu bastão, na área oca que tem na frente.

Ela depositou a jóia em minha mão. Sorri timidamente e peguei a pedra com delicadeza. Encaixei-a no bastão gentilmente. A pedra e o bastão fundiram-se com naturalidade, como se o buraco no centro da arma fosse feito sob medida. Ou como se a madeira estivesse anciando pela pedra, correspondendo ao meu desejo de ter parte de Salmakya sempre comigo.

Sorri para ela.

– É bom saber que carregarei comigo um pedaço de ti. – disse com sinceridade.

Novas lágrimas vieram aos olhos dela, e ela me abraçou. Foi então, que uma memória invadiu minha mente. Nela, estavamos nós dois, nesse mesmo quarto, abraçados. Mas naquela memória, eu partia, impelido pela necessidade, e deixava para trás uma Salmakya ainda mais apaixonada, disposta a se sacrificar por mim, a fugir comigo.

Mas agora, era ela quem fazia o sacrifício voluntário, e era eu que não queria partir. Me arrependi por um momento, pois eu poderia estar feliz ao seu lado.

– A vida de outros depende de nós, não é? – ela falou, baixinho, sem esperar sem ser respondida. A mesma frase ecoou em minha memória, dita antes por mim com determinação, no passado.

– Depende sim, meu amor. – disse com uma nova resolução mas finalmente, com lágrimas nos olhos.

Virei em direção a porta, pela qual havia saído sem remorsos no passado, mas agora ela parecia distante demais para que conseguisse dar um passo a frente. Olhei para trás e vi que Salmakya estava de costas para mim, olhando através da janela.

– Você… Vocês precisam partir. -Disse mais uma vez, sendo interrompida por um breve soluço.

Ela não se moveu. Sabendo que não teria escolha, saí a passos largos daquele ambiente que trazia tantas lembranças. Olhei ao meu bastão e uma lágrima, que há muito parecia estar guardada, escorreu pelo meu rosto. Sequei-a como se a visão dela fosse ferir meu orgulho.

Encontrei Marcos e Mock esperando. Mock vestia sua armadura pesada e Marcos usava suas roupas de viagem. Tentei não olhar nos olhos de nenhum deles, pois sabia que não aguentaria segurar minha emoção caso sentisse, ou visse, o que sentiam.

-Bem-Falei tentando parecer um pouco mais animado.-Acho que é isso. Vamos?-Olhei para meus amigos que não haviam se movido.-Vamos?-Tentei novamente. Marcos fez um sinal para esperar.-Estamos esperando algo?

-Caomil Neren vai conosco.-Disse Mock com um sorriso amarelo.

A Árvore-Mãe

Depois da luta, Salmakya me pegou pela mão e me levou por uma trilha, com pedras. Vimos um local menos arborido, onde os elfos cultivavam algumas plantações.

– Nós nos alimentamos com muitos alimentos silvestres – explicou – mas não descartamos a horticultura, desde que ela não agrida a floresta.

Como tudo, nunca vira plantas tão bem cuidadas. Os elfos tinham muito zelo por tudo, e para eles, dedicar horas a fio nas tarefas mais simples era cotidiano. Afinal, para quem tem a eternidade pela frente, o que são algumas horas?

Foi então que chegamos num enorme jardim. Era cercado por flores, e, no centro dele, estava uma árvore gigantesca. Quatro caminhos levavam a ela, a partir dos quatro pontos cardeais. Seu tronco devia ter a largura de três ou quatro casas. Suas folhas ficavam em galhos altíssimos.

Ao nos aproximarmos, Salmakya falou:

– Essa é a Árvore-Mãe. Uma das poucas coisas na floresta que modificamos. Dentro dela está o nosso salão mais importante, onde guardamos os bens mais preciosos dos elfos.

Circundamos a árvore, e vi a porta finamente entalhada. Ao lado dela, dois guardas Fedalkin-kin estavam apostos.

– Está tudo bem. – Salmakya falou aos guardas, quando me olharam. Um deles, me olhava com admiração.

– É uma honra tê-lo aqui novamente, senhor. – disse-me o guarda. – já fazem muitos anos.

– Obrigado – respondi sem entender.

As portas se abriram, e exclamei:

– Mas são…

– Isso mesmo, crianças. – disse Salmakya. – nosso maior bem.

Havia dentro da árvore uma sala ricamente iluminada. As paredes eram esculpidas, com estátuas de diversos elfos importantes. Havia também longas bandeiras grudadas, contendo um ideograma em cada, representando uma virtude. Havia diversos brinquedos no chão, livros, e locais confortáveis, como almofadas e tapetes macios.

No centro da sala, encontrava-se Marcos. Brincava alegremente com as crianças. Os rostos felizes o rodeavam, enquanto ela gritava, fingia de cavalo, ou contava histórias malucas, inventadas na hora sobre tartarugas voadoras, ou bodes falantes.

– E vejo que seu amigo encontrou o local perfeito, não é? – disse Salmakya sorrindo. A forma que olhava as crianças e seu sorriso exuberante me deixaram atordoado. Como uma mulher poderia ser assim tão linda e tão forte ao mesmo tempo? Mas ao mesmo tempo, percebi a tristeza em seu olhar.

– O que foi, querida? – perguntei.

– Cada criança aqui, também representa a morte de um elfo, meu amor. Nós somos diferentes dos humanos. Uma elfa só engravida quando alguém morre, caso contrário, não haveria lugar no mundo para tantos de nós. Dessa forma, nosso número mantém-se constante há milênios. Não se trata de uma lei nossa, mas de um processo natural.

– Impressionante. O número da tribo nunca muda?

– As vezes, uma elfa dá a luz a gêmeos, ou a um filho sem morte. Essa criança é considerada uma benção e, nesses anos, fazemos uma grande celebração.

Uma pequena elfa aproximou-se de mim, e falou, em élfico. Eu já era capaz de entender as palavras, que vinham a mim com fluência desde que lembrei-me de Salmakya:

– Caldor, Caldor, faz uma mágica para a gente?

– Quantos anos você tem, minha querida? – perguntei.

– Tenho trinta e dois. – disse a menininha, para a minha surpresa.

– E que mágica você gostaria de ver?

– Algo com flores! – ela respondeu.

– Agora o Caldor não vai poder – intercedeu, para o meu alívio, Salmakya – ele está meio doente. Por que você não mostra algumas mágicas para ele?

A menina então mexeu as mãos, e várias borboletas luminosas apareceram no céu, com várias cores. As crianças viram, e outras fizeram aparecer outros animais, cheiros e sons. E logo o salão estava cheio de luz e vida.

– É impressionante! – falei.

– Os elfos nascem com o dom da magia a flor da pele. Todas as crianças o tem, e é muito forte. Isso pode trazer acidentes também, por isso, elas ficam separadas aqui.

Em meio ao turbilhão de cores, notei que uma aura começou a brilhar em torno de mim. Era muito luminosa, branca, incomodava os olhos.

Os elfos tinham uma aura tênue, esverdeada, e Marcos brilhava com um amarelo muito pálido e muito fraco. A aura das crianças era visivelmente mais forte que a da Salmakya.

– O que são esses brilhos?

– Ah, vejo que sua aptidão mágica também está se desenvolvendo aqui. O que você vê, é a aura mágica de cada pessoa. A cor indica a raça. Elfos tem essa luz verde, por causa de nosso contato com a natureza. Os humanos tem um brilho amarelo, e, quando é tão apagado, é porque não tem nenhuma aptidão para a magia, como é o caso do seu amigo Marcos.

– E a branca?

– A branca e quase ofuscante que você tem, Caldor?

– Isso mesmo.

– Essa, só você tem. Nunca vimos nada igual. Trouxemos seu amigo Mock aqui, e ele possui duas auras. Uma delas amarela, tênue, e sobre ela uma negra, que assustou as crianças.

– Interessante. – falei

– De qualquer forma, você poderá visualizar essa aura sozinho e fora daqui, se quiser. Mas será mais tênue. A de quem não tem aptidão você não verá por completo, e será mais difícil distinguir as cores.

 

Marcos então afastou algumas crianças, e finalmente veio falar conosco. Estava visivelmente feliz.

 

– É impressionante! É impressionante! Algumas crianças aqui são mais velhas do que eu, meu amigo, no entanto, ainda são crianças.

– Pelo visto alguém vai mudar de profissão. De padre à babá? – perguntei em tom de deboche.

Marcos sorriu.

– A proposta é tentadora, mas o que seria das crianças morais, meu amigo? Há adultos que certamente precisam de tratamento mais dedicado que essas crianças. E elas estão em ótimas mãos. – fez uma reverência à Salmakya.

– Obrigada – disse ela. – Nossa administração realmente dedica uma considerável parte de nossos recursos a esse local.

Dizendo isso virou-se para atender a uma criança elfa, que puxava a saia dela insistentemente.

– Sal. Podemos brincar com o squarch?

Ela sorriu e disse:

– É claro. Mas tomem cuidado, se vocês apertarem ele, já sabem…

– Tá. Não quero ficar paradinha de novo.

– O sapinho tem um veneno que paralisa os oponentes – explicou-nos. – as crianças as vezes disparam esse mecanismo acidentalmente. Não mata e, de fato, algumas já até brincaram de ficar congeladas. É útil em batalhas também.

Ela colocou uma mão sobre a outra, fechou os olhos e falou algumas palavras. Quando as abriu novamente, uma pequena rã, de uns quatro centrímetros, apareceu. Ela entregou para a menina:

– Está aqui, querida.

– Que bonitinho – exclamou Marcos.

 

Conhecemos diversas crianças, até que Salmakya me mostrou uma em especial. Tinha uma aura muito forte, e já era quase um adolescente.

– Esse é Asuphel. Ele nasceu com um dom muito pronunciado para magia, e muito peculiar.

– Olá, Caldor. – disse o garoto. – é bom ver meu tutor novamente.

– Olá, Asuphel. – respondi.

– Asu, você pode ajudar o Caldor, como conversamos?

– Vou tentar – disse.

O garoto encostou a mão em minha cabeça e pronunciou algumas palavras místicas. Fui bombardeado com um jorro de memórias. Os ensinamentos que dei a ele, de magias básicas até intermediárias. Brincadeiras que fizemos. Depois, vi imagens dele sozinho, da relação com os pais, do primeiro amor, de coisas que ele não queria que eu visse.

Olhei em seus olhos, quando tudo terminou.

– Essas são as minhas memórias. – disse-me.

– Sou grato por elas. – respondi com sinceridade. – E sinto-me honrado por compatilha-las comigo. E, fique tranquilo. O que aprendi, guardarei para mim.

– Eu sabia que podia confiar em você. Agora estou muito cansado, a magia me desgastou.

Eu agora sabia o porque. Ouvi a mim mesmo explicando nas memórias do garoto. “Quando você usa a magia, você coloca parte de sua energia vital no processo. É por isso que magos envelhecem mais cedo. Só com o controle que você poderá deixar de perder anos, para perder minutos.”

– Mas há mais algo que quero compartilhar com você. – falou. – mais algumas memórias. Será rápido.

Ele encostou a mão na minha cabeça. E vi novamente.

Salmakya estava lá, comigo. Estávamos conversando e o garoto olhava a conversa. Ela estava triste, eu também, mas ele não conseguia entender direito o que falávamos. Eu estava com o rosto sério, e então, a beijei. Um beijo intenso, que ela deu com tristeza. Logo em seguida, fui embora da sala, a passos rápidos e decididos, visivelmente abalado. Ela se virou, e estava chorando, tentando ser forte.

– Esse foi meu último dia aqui, certo? – perguntei assim que a visão acabou, já sabendo a resposta.

Ele balançou a cabeça positivamente e foi se deitar.

 

Olhei para Salmakya e seu olhar me lembrou de algo que eu temia. Nossa viagem não estava no fim, e aquele momento chegaria outra vez. Os tempos felizes com os elfos estavam chegando ao fim.

Caomil Neren

Duas horas se passaram, e lá estava Caomil, na arena, com seu arco. Havia dispensado o bastão.

– Nada de golpes mortais. – falou o juíz, sério.

– Vou usar apenas as minhas mãos, mas nada me separa do meu arco – disse Caomil.

– Se ele luta sem armas, eu luto também. – disse Mock.

 

A luta começou, e ambos se mediram por alguns segundos.

Então Caomil sorriu e avançou. Usava apenas o dedo indicador e o dedo médio esticados e os demais abaixados.

Mock tentou aproveitar o movimento do elfo para golpear-lhe, mas o golpe foi graciosamente esquivado. Caomil então encostou os dedos na nuca do ghoul, que imediatamente foi ao chão, urrando de dor.

– Que espécie de bruxaria é essa? – perguntou

– Não é bruxaria, meu caro. É apenas habilidade.

O ghoul levantou-se. Percebeu que estava tonto. Seria mais difícil agora. Tentou um ataque brutal, usando ambas as mãos com agilidade e violência.

O elfo esquivou de uma, e com a outra, encostou no braço de Mock, pressionando-lhe o pulso com o polegar.

Mock deu outro grito:

– Minha mão!!! Está formigando. Não consigo mover meus dedos!

Caomil sorriu novamente, e aproveitou o desconforto do adversário para toca-lo na testa. O movimento foi rápido e o ghoul não conseguiu aparar.

Sentiu o mundo girar, foi ao chão. Ouvia os aplausos para Caomil, certamente a batalha estava perdida. Sentiu suas mãos encostarem no chão, e cuspiu algo. Era vômito. Estava vomitando diante de elfos. Certamente seria motivo de piada, uma vergonha.

Percebeu que estava perdendo os sentidos. E ao som de mais aplausos, sentindo o peso e a humilhação de uma derrota patética, desmaiou.

Segunda luta

Mock sentou num canto, descansou e sinalizou que sim, com a cabeça. O mesmo elfo entrou novamente na arena, e falou:

– Nosso amigo venceu Enuen, um de nossos guerreiros promissores. Mas seria ele capaz de vencer um Fedalkin já experiente? Apresento-lhe Haldeon. Ele já passou por parte de nosso treinamento, e não cometerá os mesmos erros de seu colega.

Novamente, ambos posicionaram-se no grid de batalha. Mas Halderon não deu muito tempo para provocações. Correu em direção ao ghoul, e iniciou um golpe na cabeça. Porém, quando Mock tentou aparar instintivamente, o elfo saltou, e com um cambalhota por cima da cabeça de Mock. Caiu do outro lado do ghoul e deu um chute para trás. Isso levou Mock ao chão, abrindo um pouco do seu lábio.

– Então o elfo quer brincar? – disse o ghoul. Mas, diferente de Enuen, seu tom era mais sério e preocupado, do que de brincadeira.

O elfo ignorou totalmente, e assumiu posição defensiva.

Mock avançou e atacou com violência, o elfo esquivou-se facilmente, e bateu-lhe com o bastão nas costas, enquanto esticava o pé. A própria força de Mock foi usada contra ele, e novamente foi ao chão. Pela primeira vez, o elfo falou:

– Seria mais fácil se você se mantivesse de pé, não é? Andou bebendo antes da batalha?

Mock levantou-se, com os punhos fechados. E tentou avançar novamente. O elfo ia esquivar-se e então ele abriu a mão e jogou-lhe um punhado de pó que havia pegado no chão, nos olhos.

– Ei! – gritou o elfo, ainda com poeira nos olhos – isso não é justo.

Mock chutou-lhe nas costas, com força.

– É uma disputa entre métodos. – disse – e não se trata de justiça mas sim de batalha.

 

Era uma luta onde apenas o golpe fatal não era lícito. E o elfo sabia disso.

 

O elfo agora estava mais atento. Não bobearia novamente e Mock sabia disso. Mas percebeu que seu golpe atingira em cheio as costelas do inimigo, e tinha uma vantagem. O elfo teria que proteger mais aquele ponto, e, portanto, deixaria a guarda direita mais desguarnecida.

Mock aguardou. Sabia que não era o momento de atacar. Seu adversário era realmente bom, e já o levara ao chão duas vezes.

Ambos olharam um para o outro, o avanço de um provocando o recuo de outro, mas sem que os dois saíssem do centro da arena por muito tempo. Era uma batalha entre gigantes.

O elfo atacou novamente. Foi um movimento extremamente rápido, na tentativa de pegar Mock de surpresa. Provocou uma finta na parte de cima, na esperança que o Ghoul bloqueasse, enquanto atacou a parte de baixo, de modo a inutilizar a perna de Mock.

Mas Mock percebeu a finta, e apenas recuou um pouco a cabeça, enquanto defendia a perna de seu adversário com o bastão. Ao sentir o impacto, o elfo recuou novamente, de maneira igualmente ágil.

– Essa foi boa. – elogiou Mock.

– Obrigado. – disse o elfo.

Mock então avançou com brutalidade, com um golpe debaixo para cima. O elfo aparou, mas seu bastão voou de sua mão, indo cair no canto da arena, atrás do ghoul.

– Um golpe surpreendentemente forte – disse o elfo, arfando.

– Um dos meus melhores – retrucou o ghoul.

Ambos suavam. O elfo então tentou chutar Mock no rosto, com um movimento circular da perna. Foi um erro.

O ghoul usou novamente de sua incrível força, agarrou-lhe a perna e torceu. O elfo girou junto, na tentativa de amenizar o dano, mas caiu no chão. Mock tentou dar um pisão, mas o elfo girou com agilidade e se colocou de pé. Agora mancava.

Mock aproveitou para avançar, largando o bastão e dando socos. O elfo esquivou-se do primeiro, mas sua perna comprometida não impediu que levasse o segundo, o terceiro e o quarto. A sucessão de golpes fez com que sangue saísse de sua face.

O elfo caiu de joelhos, e Mock aproveitou para dar-lhe o golpe final. Segurou-lhe a cabeça e a jogou contra seu próprio joelho.

 

O elfo caiu desmaiado. O guerreiro perguntou:

– É só isso que vocês tem?

 

A platéia novamente aplaudiu. Estavam diante de um estilo de luta novo, brutal, mas eficiente. Poucos conseguiam vencer um Fedalkin treinado.

– Ninguém mais me desafia? – gritava em tom de bravata.

Foi quando vi Hannor olhar para Caomil, e fazer um sinal positivo com a cabeça.

Caomil levantou a voz, e apenas disse:

– Eu lutarei com você. Mas lutaremos em duas horas, com você descansado e curado.

A platéia fez silêncio. E logo os murmúrios começaram. Haveriam apostas nos bares. Quem venceria? Um Fedalkin-Kin, ou o guerreiro brutal morto-vivo?