Foi mais ou menos uma semana depois que começamos a avistá-las. No início, apenas uma movimentação estranha, depois uma presença constante.
Ainda rumávamos para o norte, seguindo a intuição de Marcos. Caomil desconfiava que seguíamos em direção às ruinas de Ood, uma terra temida, devastada e desabitada.
Numa das noites, Mock havia saído para caçar, como fazia esse horário. Marcos dormia em sua barraca, enquanto eu e Caomil conversávamos. Era uma noite fria. Falávamos amenidades e subitamente o elfo ficou quieto. Olhava intensamente, para à distância.
- O que vê?
Ele estendeu a mão para silenciar-me.
- Você logo as verá também. Mas apenas percebo seus olhos vermelhos na escuridão. Seus amigos necromantes foram mais rápidos do que calculei.
- O que são?
- Criaturas da noite. Ainda não sei qual escolheram, mas posso sentir sua presença nos rondando.
Era verdade, havia ali uma presença e eu também podia senti-la. O sono de Marcos também se agitava, e o frei frequentemente acordava durante a noite, e orava em sua tenda.
- Ontem também as senti durante o dia – comentou Caomil. – senti a movimentação diferente de alguns pássaros da floresta, posso jurar que alguns deles nos espiavam.
- Não vi corvos ou gralhas.
Caomil sorriu. Um sorriso discreto, como sempre.
- Os necromantes não usam só criaturas medonhas e assustadoras, meu amigo. Pode ser um belo rouxinol, ou um pardal. O importante é que a criatura atenda a seu propósito.
- Então, a criatura da noite poderia ser uma simples coruja?
- Normalmente sim, e acho que há algumas noites atrás eram. Mas hoje não é isso que estou sentindo. Elas estão em maior número e pela proximidade de seus olhos, creio que sejam em bando. Prepare suas armas, pois creio que essa noite mesmo irão atacar.
Tratei de acordar Marcos e me preocupei por Mock não estar ali. Uma ou duas horas depois, escutávamos os rosnados, cercando a barraca. Eu só já podia sentir a movimentação de vultos, ainda distantes, nos cercando, mas Caomil foi mais preciso.
- Três deles parecem lobos, ou poderiam ser worgs. Um deles é felino, mas não posso dizer se é uma pantera, ou uma onça. Está claro que estão sendo controlados, ou jamais andariam juntos.
Caomil pegou o arco, e mirou na direção dos bichos. Parecia hesitante em fazê-lo. Começou a pronunciar algumas palavras num idioma que parecia o élfico, mas eu era incapaz de identificar.
- Marcos começou uma oração silenciosa. Tudo indicava que as criaturas atacariam em breve.
Agarrei meu bastão, senti os músculos do meu corpo se enrijecerem.
- Sorte termos um Fedalkin conosco – falei, tentando aliviar a tensão.
Ele sorriu novamente.
- O único problema Caldor… – disse Caomil, aparentemente tranqüilo – é que descrevi para você apenas um, dos quatro bandos idênticos que estão em volta de nós. E eles estão cada vez mais perto.