Era uma madrugada e já começavamos a sentir a mudança do clima. A temperatura a essa hora, antes do sol nascer, era gélida. Mock não estava conosco, provavelmente caçava como sempre. Marcos ainda dormir profundamente, mas acordei inquieto.
Levantei-me a fui respirar um pouco de ar puro, fora da barraca. Lá, ao lado de uma pequena fogueira, estava Caomil, quieto. Seu jeito circunspecto me atormentava.
Sentei ao seu lado, sem falar nada, peguei um pouco da água quente e coloquei num copo.
- Trouxe um pouco de chá dos elfos – me falou, esticando um pequeno saco. – basta colocar o saco todo dentro do copo.
- Assim? – perguntei aceitando o pacote e mergulhando-o inteiro, dentro do copo.
- Isso mesmo. – ele respondeu.
Ficamos ali, bebendo por alguns minutos. Ele olhava à distância, como se procurasse algo.
- Seu amigo, o ghoul. – falou novamente – saiu para caçar de madrugada como faz sempre. Dessa vez o observei e vi a transformação, é assustador. Vocês não temem que ele… – deixou a frase no ar.
Dei de ombros.
- Marcos confia nele… e eu em Marcos, eu acho.
- Ele é um lutador formidável. Não viu como os elfos o aplaudiram em nosso duelo?
- O aplaudiram? – perguntei incrédulo – pensei que estivessem lhe aplaudindo. Afinal, você o venceu com 3 golpes.
Caomil sorriu. Era raro ver o elfo com uma expressão tão leve. – Caldor, a maioria cai no primeiro golpe. É a arte secreta dos Fedalkin. Seu amigo conseguiu suportar não um, mas três deles. As apostas mais ousadas diziam que ele aguentaria apenas dois. Prefiro não pensar que um dia terei que encara-lo, caso ele esteja transformado. Sua ferocidade é centenas de vezes maior que a que vimos na arena.
- Mas é isso que o preocupa – disse Marcos, saindo da barraca. Ainda tinha uma cara de sono, e andava cambaleante.
- Espiando a conversa alheia, amigo? – perguntei sorrindo. – o que faz de pé tão cedo?
- Acordei ainda a pouco – disse-me. – Estava sonhando com o grande deus Helm. E ele me dizia que teremos dias difíceis. Tentei-me levantar umas duas ou três vezes, entao ouvi a conversa de vocês. – disse com um bocejo.
- E seu amigo está certo – disse Caomil – não é o ghoul que me preocupa.
- O que é então? – perguntei.
- A partir do momento que você usou sua mágica, Caldor, você chamou a atenção dos mesmos necromantes que o prenderam. Eles devem estar vindo em nossa direção nesse momento.
- Mas como…? – Perguntei incrédulo.
- Você ainda está se recuperando. Embora tenha muito poder, ainda o usa como um aspirante. E faz muito barulho. Não um barulho que se ouve com um ouvido, mas os magos negros já perceberam. E seu amigo, Mock, também é um alvo fácil de ser rastreado.
O céu se azulava, uma indicação de que o sol provavelmente nasceria. Tomei mais um gole de chá, pensando nessa nova informação.
- Foi por isso que Salmakya te mandou? Para me proteger?
- Sim, foi por isso. O confronto está breve, e não será nem o primeiro, e nem o último.
Fiquei preocupado. O perigo era iminente, e podia senti-lo em cada fio do meu corpo. Agora era só uma questão de tempo… pouco tempo.