- Você já acordou?
Perguntou-me Salmakya assim que acordei. Ela olhava pela janela, o sol batia-lhe sobre o corpo. Vestia apenas minha camisa, que cobria-lhe até acima dos joelhos.
- Acabei de acordar – disse sorrindo. – Todo aquele treinamento mágico ontem me cansou um bocado.
- Só o treinamento? – me perguntou com um sorriso malicioso.
Eu sorri em retribuição.
- Estive pensando. – ela continuou – Acho que hoje deveríamos ver como seu amigo Mock vai se sair. Ontem Hannor apresentou a ele a nossa cidade, e hoje ele deve praticar com os Fedalkin.
- Por mim está ótimo. – comentei. – Todo aquele ocus pocus pode esperar mais um pouco.
Ela deu uma gostosa gargalhada.
- Ai Caldor. É tão estranho! Primeiro, vejo você dormindo. Agora, você não quer praticar mágica? Acho que quem quer que tenha feito isso com você, bateu realmente forte em sua cabeça. – passou a mão em meu cabelo.
Sorri novamente e falei:
- É, talvez você tenha razão.
- Venha, vamos tomar café. Nada de beijos antes de nós tirarmos esse hálito de javali das nossas bocas.
- Seu desejo é uma ordem, senhora Druida Mestre! – disse fazendo continência.
Ela fez uma pequena careta, e fomos até uma mesa em seu quarto. Lá, havia uma fruteira com algumas frutas exóticas, cultivadas pelos elfos. O sabor delas era realmente muito diferente das frutas de Hoor, mesmo assim, me despertou uma sensação de nostalgia. Os elfos entregaram-me novos trajes, que serviram perfeitamente. Era uma túnica branca, leve e bonita. Salmakya vestiu uma túnica azul deslumbrante. Seu tecido semi-transparente mantinha o seu ar místico, e ressaltava as belezas de seu corpo, sem que isso a tornasse vulgar. Aliás, bem pelo contrário, ao vesti-lo, sua nobreza voltava a tona.
Saímos de sua casa. Como de costume, alguns animais aproximavam-se dela, e ela conversava com cada um deles. Passava a mão em suas cabeças, e eles pareciam realmente felizes com sua presença. Acompanhou-me até o local de treinamento. Mock estava lá, e parecia à vontade. Como sempre, estava com sua armadura pesada, mas estava sem capacete, e parecia bem animado com a batalha que tinha a frente. Ia lutar contra o mais novo soldado Fedalkin.
Fomos até o lado de Hannor. Caminhei até ele sem jeito, pois não sabia qual seria sua reação ao me ver com Salmakya. Ele sorriu e me cumprimentou efusivamente.
- Deus! Como é bom ter você aqui, meu irmão! – falou, para o meu alívio.
Ao seu lado, havia um elfo bastante circunspecto, com longos cabelos e o arco mais perfeito que eu já vira. Hannor me apresentou:
- Este, é Caomil Neren. Está a caminho de se tornar um dos capitães dos Fedalkin-kyn, a nossa topa de elite. É o melhor arqueiro dos elfos, um mateiro experiente, e um guerreiro mortal.
- Nós elfos as vezes nascemos com um dom especial – explicou-me Salmakya – Alguns são muito raros, outros são mais comuns. Eu, por exemplo, consigo comunicar-me com os animais, saber o que eles setem e pensam. O Hannor não teve nenhum dom especial. Se ter um dom é algo raro, ter dois é algo quase impossível, são poucos casos registrados e geralmente um dom acaba bem pouco pronunciado. Já Caomil, é o único da nossa espécia que se tem notícia com três desses dons, sendo dois deles fortes.
- Nossa! – Exclamei. – E o que ele é capaz de fazer?
- Caomil tem o dom da visão. Isso é o que faz nossos melhores arqueiros. Ele enxerga até seis vezes mais distante do que um elfo comum, e isso é uma marca bastante boa, mesmo para quem tem o dom. Também pode ver coisas que se movem muito rapidamente com nitidez, ou ver detalhes em peças pequenas. Seu segundo dom é o do equilíbrio perfeito. Pode correr sobre o gelo, fazer acrobacias com grande facilidade, ou mesmo atirar com o arco sobre um cavalo, como se estivesse a pé. Finalmente, Caomil também possui o dom da recuperação. É o menos pronunciado dos três, aliás, fraco até para os padrões de quem normalmente possui a habilidade, mas permite que ele se cure mais rápido do que a maioria, seja resistente a doenças e venenos, e certamente, ainda é um diferencial.
Nossa conversa foi interrompida pela arena. Um elfo estava fazendo as apresentações:
- Meus caros amigos. Hoje, veremos uma batalha entre Enuen, o elfo, e Mock, o guerreiro. Peço para que se concentrem em seus movimentos, e vejam o estilo de luta único. Não se enganem. Assim como nosso amigo Fedalkyn, Mock também tem mais de cem a nos de experiência em combate e, após a batalha, poderemos trocar experiências e falar como irmãos guerreiros.
Sentamo-nos todos para assistir.
Um bastão foi dado a cada guerreiro. Mock não gostou muito da substituição, mas não pareceu incomodado. Manejava essa arma com bastante facilidade. Enuen vestia apenas uma armadura leve, mas parecia confiante, e movia-se com agilidade, e não parecia temer o inimigo.
Salmakya segurou a minha mão. Ao que tudo indicava, uma ótima batalha estava para começar.