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Despedida

Acordei numa manhã ensolarada. Salmakya novamente olhava pela janela, apreciei por alguns segundos a sua beleza estonteante. Notei que tinha o rosto contemplativo.

- Bom dia, querida. – disse da cama, com a voz ainda estranha.

- Bom dia. – ela sorriu. Mas notei que foi um sorriso triste.

Fui até ela, a abracei a beijei na testa. Ela sorriu novamente, ficou mais claro que ela estava visivelmente chateada.

- O que aconteceu? – perguntei enquanto ainda me expreguiçava, após dar-lhe uns minutos de silêncio.

- É hoje, Caldor. Hoje vocês devem partir. – disse-me apontando as roupas, já separadas para a viagem.

Senti suas palavras como uma faca, enfiada em meu peito. Por que eu deveria sair? Minhas lembranças estavam voltando e eu estava ao lado da pessoa que, definitivamente, escolhi para estar ao meu lado, pelo resto dos meus dias.

- Você sabe… – ela continuou, um pouco hesitante, e virou-se de costas. – ambos temos resposabilidades, maiores que nós mesmos. Maiores até…

Não quis continuar, pois suas palavras estavam misturadas às lágrimas, que já chegavam. Mas pude captar o recado, “maiores até do que nosso amor”. Eu estava triste, uma revolução de sentimentos avassalava meu peito. Queria chorar e sentia raiva. Mas meu semblante não denunciava meu sofrimento.

- Eu amo você, Salmakya. – disse simplesmente.

Ela se virou, e pequenas gotas novamente mostravam seu sofrimento. Demos as mãos e ela me beijou novamente.

- Eu também te amo.

Ficamos assim, parados, por alguns segundos. A cabeça dela no meu peito, apenas sentiamos o calor de um pelo outro. Ela então levantou a cabeça, enxugou as lágrimas.

- Quero te dar um presente. – disse-me, enquanto eu me vestia.

Então colocou as mãos uma sobre a outra, em forma de concha, e pronunciou algumas palavras na língua da magia. Senti um pulso de energia cruzando a sala e indo em direção a sua mão. Ao abrir, lá estava um grande rubi.

- Esta jóia chama-se coração solitário. Está com a minha família a dezenas de gerações, desde que os elfos sequer tinham contato com os humanos. Nela, depositamos boa parte de nossa energia. Quero que fique com você.

- Amor, eu não posso aceitar. – disse, percebendo a importância da pedra – sei que é importante demais para você.

- Ela carrega parte de mim, Caldor. E através dela, saberei se está em perigo, ou precisando de ajuda. Encaixe-a em seu bastão, na área oca que tem na frente.

Ela depositou a jóia em minha mão. Sorri timidamente e peguei a pedra com delicadeza. Encaixei-a no bastão gentilmente. A pedra e o bastão fundiram-se com naturalidade, como se o buraco no centro da arma fosse feito sob medida. Ou como se a madeira estivesse anciando pela pedra, correspondendo ao meu desejo de ter parte de Salmakya sempre comigo.

Sorri para ela.

- É bom saber que carregarei comigo um pedaço de ti. – disse com sinceridade.

Novas lágrimas vieram aos olhos dela, e ela me abraçou. Foi então, que uma memória invadiu minha mente. Nela, estavamos nós dois, nesse mesmo quarto, abraçados. Mas naquela memória, eu partia, impelido pela necessidade, e deixava para trás uma Salmakya ainda mais apaixonada, disposta a se sacrificar por mim, a fugir comigo.

Mas agora, era ela quem fazia o sacrifício voluntário, e era eu que não queria partir. Me arrependi por um momento, pois eu poderia estar feliz ao seu lado.

- A vida de outros depende de nós, não é? – ela falou, baixinho, sem esperar sem ser respondida. A mesma frase ecoou em minha memória, dita antes por mim com determinação, no passado.

- Depende sim, meu amor. – disse com uma nova resolução mas finalmente, com lágrimas nos olhos.

Virei em direção a porta, pela qual havia saído sem remorsos no passado, mas agora ela parecia distante demais para que conseguisse dar um passo a frente. Olhei para trás e vi que Salmakya estava de costas para mim, olhando através da janela.

- Você… Vocês precisam partir. -Disse mais uma vez, sendo interrompida por um breve soluço.

Ela não se moveu. Sabendo que não teria escolha, saí a passos largos daquele ambiente que trazia tantas lembranças. Olhei ao meu bastão e uma lágrima, que há muito parecia estar guardada, escorreu pelo meu rosto. Sequei-a como se a visão dela fosse ferir meu orgulho.

Encontrei Marcos e Mock esperando. Mock vestia sua armadura pesada e Marcos usava suas roupas de viagem. Tentei não olhar nos olhos de nenhum deles, pois sabia que não aguentaria segurar minha emoção caso sentisse, ou visse, o que sentiam.

-Bem-Falei tentando parecer um pouco mais animado.-Acho que é isso. Vamos?-Olhei para meus amigos que não haviam se movido.-Vamos?-Tentei novamente. Marcos fez um sinal para esperar.-Estamos esperando algo?

-Caomil Neren vai conosco.-Disse Mock com um sorriso amarelo.

A Árvore-Mãe

Depois da luta, Salmakya me pegou pela mão e me levou por uma trilha, com pedras. Vimos um local menos arborido, onde os elfos cultivavam algumas plantações.

- Nós nos alimentamos com muitos alimentos silvestres – explicou – mas não descartamos a horticultura, desde que ela não agrida a floresta.

Como tudo, nunca vira plantas tão bem cuidadas. Os elfos tinham muito zelo por tudo, e para eles, dedicar horas a fio nas tarefas mais simples era cotidiano. Afinal, para quem tem a eternidade pela frente, o que são algumas horas?

Foi então que chegamos num enorme jardim. Era cercado por flores, e, no centro dele, estava uma árvore gigantesca. Quatro caminhos levavam a ela, a partir dos quatro pontos cardeais. Seu tronco devia ter a largura de três ou quatro casas. Suas folhas ficavam em galhos altíssimos.

Ao nos aproximarmos, Salmakya falou:

- Essa é a Árvore-Mãe. Uma das poucas coisas na floresta que modificamos. Dentro dela está o nosso salão mais importante, onde guardamos os bens mais preciosos dos elfos.

Circundamos a árvore, e vi a porta finamente entalhada. Ao lado dela, dois guardas Fedalkin-kin estavam apostos.

- Está tudo bem. – Salmakya falou aos guardas, quando me olharam. Um deles, me olhava com admiração.

- É uma honra tê-lo aqui novamente, senhor. – disse-me o guarda. – já fazem muitos anos.

- Obrigado – respondi sem entender.

As portas se abriram, e exclamei:

- Mas são…

- Isso mesmo, crianças. – disse Salmakya. – nosso maior bem.

Havia dentro da árvore uma sala ricamente iluminada. As paredes eram esculpidas, com estátuas de diversos elfos importantes. Havia também longas bandeiras grudadas, contendo um ideograma em cada, representando uma virtude. Havia diversos brinquedos no chão, livros, e locais confortáveis, como almofadas e tapetes macios.

No centro da sala, encontrava-se Marcos. Brincava alegremente com as crianças. Os rostos felizes o rodeavam, enquanto ela gritava, fingia de cavalo, ou contava histórias malucas, inventadas na hora sobre tartarugas voadoras, ou bodes falantes.

- E vejo que seu amigo encontrou o local perfeito, não é? – disse Salmakya sorrindo. A forma que olhava as crianças e seu sorriso exuberante me deixaram atordoado. Como uma mulher poderia ser assim tão linda e tão forte ao mesmo tempo? Mas ao mesmo tempo, percebi a tristeza em seu olhar.

- O que foi, querida? – perguntei.

- Cada criança aqui, também representa a morte de um elfo, meu amor. Nós somos diferentes dos humanos. Uma elfa só engravida quando alguém morre, caso contrário, não haveria lugar no mundo para tantos de nós. Dessa forma, nosso número mantém-se constante há milênios. Não se trata de uma lei nossa, mas de um processo natural.

- Impressionante. O número da tribo nunca muda?

- As vezes, uma elfa dá a luz a gêmeos, ou a um filho sem morte. Essa criança é considerada uma benção e, nesses anos, fazemos uma grande celebração.

Uma pequena elfa aproximou-se de mim, e falou, em élfico. Eu já era capaz de entender as palavras, que vinham a mim com fluência desde que lembrei-me de Salmakya:

- Caldor, Caldor, faz uma mágica para a gente?

- Quantos anos você tem, minha querida? – perguntei.

- Tenho trinta e dois. – disse a menininha, para a minha surpresa.

- E que mágica você gostaria de ver?

- Algo com flores! – ela respondeu.

- Agora o Caldor não vai poder – intercedeu, para o meu alívio, Salmakya – ele está meio doente. Por que você não mostra algumas mágicas para ele?

A menina então mexeu as mãos, e várias borboletas luminosas apareceram no céu, com várias cores. As crianças viram, e outras fizeram aparecer outros animais, cheiros e sons. E logo o salão estava cheio de luz e vida.

- É impressionante! – falei.

- Os elfos nascem com o dom da magia a flor da pele. Todas as crianças o tem, e é muito forte. Isso pode trazer acidentes também, por isso, elas ficam separadas aqui.

Em meio ao turbilhão de cores, notei que uma aura começou a brilhar em torno de mim. Era muito luminosa, branca, incomodava os olhos.

Os elfos tinham uma aura tênue, esverdeada, e Marcos brilhava com um amarelo muito pálido e muito fraco. A aura das crianças era visivelmente mais forte que a da Salmakya.

- O que são esses brilhos?

- Ah, vejo que sua aptidão mágica também está se desenvolvendo aqui. O que você vê, é a aura mágica de cada pessoa. A cor indica a raça. Elfos tem essa luz verde, por causa de nosso contato com a natureza. Os humanos tem um brilho amarelo, e, quando é tão apagado, é porque não tem nenhuma aptidão para a magia, como é o caso do seu amigo Marcos.

- E a branca?

- A branca e quase ofuscante que você tem, Caldor?

- Isso mesmo.

- Essa, só você tem. Nunca vimos nada igual. Trouxemos seu amigo Mock aqui, e ele possui duas auras. Uma delas amarela, tênue, e sobre ela uma negra, que assustou as crianças.

- Interessante. – falei

- De qualquer forma, você poderá visualizar essa aura sozinho e fora daqui, se quiser. Mas será mais tênue. A de quem não tem aptidão você não verá por completo, e será mais difícil distinguir as cores.

 

Marcos então afastou algumas crianças, e finalmente veio falar conosco. Estava visivelmente feliz.

 

- É impressionante! É impressionante! Algumas crianças aqui são mais velhas do que eu, meu amigo, no entanto, ainda são crianças.

- Pelo visto alguém vai mudar de profissão. De padre à babá? – perguntei em tom de deboche.

Marcos sorriu.

- A proposta é tentadora, mas o que seria das crianças morais, meu amigo? Há adultos que certamente precisam de tratamento mais dedicado que essas crianças. E elas estão em ótimas mãos. – fez uma reverência à Salmakya.

- Obrigada – disse ela. – Nossa administração realmente dedica uma considerável parte de nossos recursos a esse local.

Dizendo isso virou-se para atender a uma criança elfa, que puxava a saia dela insistentemente.

- Sal. Podemos brincar com o squarch?

Ela sorriu e disse:

- É claro. Mas tomem cuidado, se vocês apertarem ele, já sabem…

- Tá. Não quero ficar paradinha de novo.

- O sapinho tem um veneno que paralisa os oponentes – explicou-nos. – as crianças as vezes disparam esse mecanismo acidentalmente. Não mata e, de fato, algumas já até brincaram de ficar congeladas. É útil em batalhas também.

Ela colocou uma mão sobre a outra, fechou os olhos e falou algumas palavras. Quando as abriu novamente, uma pequena rã, de uns quatro centrímetros, apareceu. Ela entregou para a menina:

- Está aqui, querida.

- Que bonitinho – exclamou Marcos.

 

Conhecemos diversas crianças, até que Salmakya me mostrou uma em especial. Tinha uma aura muito forte, e já era quase um adolescente.

- Esse é Asuphel. Ele nasceu com um dom muito pronunciado para magia, e muito peculiar.

- Olá, Caldor. – disse o garoto. – é bom ver meu tutor novamente.

- Olá, Asuphel. – respondi.

- Asu, você pode ajudar o Caldor, como conversamos?

- Vou tentar – disse.

O garoto encostou a mão em minha cabeça e pronunciou algumas palavras místicas. Fui bombardeado com um jorro de memórias. Os ensinamentos que dei a ele, de magias básicas até intermediárias. Brincadeiras que fizemos. Depois, vi imagens dele sozinho, da relação com os pais, do primeiro amor, de coisas que ele não queria que eu visse.

Olhei em seus olhos, quando tudo terminou.

- Essas são as minhas memórias. – disse-me.

- Sou grato por elas. – respondi com sinceridade. – E sinto-me honrado por compatilha-las comigo. E, fique tranquilo. O que aprendi, guardarei para mim.

- Eu sabia que podia confiar em você. Agora estou muito cansado, a magia me desgastou.

Eu agora sabia o porque. Ouvi a mim mesmo explicando nas memórias do garoto. “Quando você usa a magia, você coloca parte de sua energia vital no processo. É por isso que magos envelhecem mais cedo. Só com o controle que você poderá deixar de perder anos, para perder minutos.”

- Mas há mais algo que quero compartilhar com você. – falou. – mais algumas memórias. Será rápido.

Ele encostou a mão na minha cabeça. E vi novamente.

Salmakya estava lá, comigo. Estávamos conversando e o garoto olhava a conversa. Ela estava triste, eu também, mas ele não conseguia entender direito o que falávamos. Eu estava com o rosto sério, e então, a beijei. Um beijo intenso, que ela deu com tristeza. Logo em seguida, fui embora da sala, a passos rápidos e decididos, visivelmente abalado. Ela se virou, e estava chorando, tentando ser forte.

- Esse foi meu último dia aqui, certo? – perguntei assim que a visão acabou, já sabendo a resposta.

Ele balançou a cabeça positivamente e foi se deitar.

 

Olhei para Salmakya e seu olhar me lembrou de algo que eu temia. Nossa viagem não estava no fim, e aquele momento chegaria outra vez. Os tempos felizes com os elfos estavam chegando ao fim.

Caomil Neren

Duas horas se passaram, e lá estava Caomil, na arena, com seu arco. Havia dispensado o bastão.

- Nada de golpes mortais. – falou o juíz, sério.

- Vou usar apenas as minhas mãos, mas nada me separa do meu arco – disse Caomil.

- Se ele luta sem armas, eu luto também. – disse Mock.

 

A luta começou, e ambos se mediram por alguns segundos.

Então Caomil sorriu e avançou. Usava apenas o dedo indicador e o dedo médio esticados e os demais abaixados.

Mock tentou aproveitar o movimento do elfo para golpear-lhe, mas o golpe foi graciosamente esquivado. Caomil então encostou os dedos na nuca do ghoul, que imediatamente foi ao chão, urrando de dor.

- Que espécie de bruxaria é essa? – perguntou

- Não é bruxaria, meu caro. É apenas habilidade.

O ghoul levantou-se. Percebeu que estava tonto. Seria mais difícil agora. Tentou um ataque brutal, usando ambas as mãos com agilidade e violência.

O elfo esquivou de uma, e com a outra, encostou no braço de Mock, pressionando-lhe o pulso com o polegar.

Mock deu outro grito:

- Minha mão!!! Está formigando. Não consigo mover meus dedos!

Caomil sorriu novamente, e aproveitou o desconforto do adversário para toca-lo na testa. O movimento foi rápido e o ghoul não conseguiu aparar.

Sentiu o mundo girar, foi ao chão. Ouvia os aplausos para Caomil, certamente a batalha estava perdida. Sentiu suas mãos encostarem no chão, e cuspiu algo. Era vômito. Estava vomitando diante de elfos. Certamente seria motivo de piada, uma vergonha.

Percebeu que estava perdendo os sentidos. E ao som de mais aplausos, sentindo o peso e a humilhação de uma derrota patética, desmaiou.

Segunda luta

Mock sentou num canto, descansou e sinalizou que sim, com a cabeça. O mesmo elfo entrou novamente na arena, e falou:

- Nosso amigo venceu Enuen, um de nossos guerreiros promissores. Mas seria ele capaz de vencer um Fedalkin já experiente? Apresento-lhe Haldeon. Ele já passou por parte de nosso treinamento, e não cometerá os mesmos erros de seu colega.

Novamente, ambos posicionaram-se no grid de batalha. Mas Halderon não deu muito tempo para provocações. Correu em direção ao ghoul, e iniciou um golpe na cabeça. Porém, quando Mock tentou aparar instintivamente, o elfo saltou, e com um cambalhota por cima da cabeça de Mock. Caiu do outro lado do ghoul e deu um chute para trás. Isso levou Mock ao chão, abrindo um pouco do seu lábio.

- Então o elfo quer brincar? – disse o ghoul. Mas, diferente de Enuen, seu tom era mais sério e preocupado, do que de brincadeira.

O elfo ignorou totalmente, e assumiu posição defensiva.

Mock avançou e atacou com violência, o elfo esquivou-se facilmente, e bateu-lhe com o bastão nas costas, enquanto esticava o pé. A própria força de Mock foi usada contra ele, e novamente foi ao chão. Pela primeira vez, o elfo falou:

- Seria mais fácil se você se mantivesse de pé, não é? Andou bebendo antes da batalha?

Mock levantou-se, com os punhos fechados. E tentou avançar novamente. O elfo ia esquivar-se e então ele abriu a mão e jogou-lhe um punhado de pó que havia pegado no chão, nos olhos.

- Ei! – gritou o elfo, ainda com poeira nos olhos – isso não é justo.

Mock chutou-lhe nas costas, com força.

- É uma disputa entre métodos. – disse – e não se trata de justiça mas sim de batalha.

 

Era uma luta onde apenas o golpe fatal não era lícito. E o elfo sabia disso.

 

O elfo agora estava mais atento. Não bobearia novamente e Mock sabia disso. Mas percebeu que seu golpe atingira em cheio as costelas do inimigo, e tinha uma vantagem. O elfo teria que proteger mais aquele ponto, e, portanto, deixaria a guarda direita mais desguarnecida.

Mock aguardou. Sabia que não era o momento de atacar. Seu adversário era realmente bom, e já o levara ao chão duas vezes.

Ambos olharam um para o outro, o avanço de um provocando o recuo de outro, mas sem que os dois saíssem do centro da arena por muito tempo. Era uma batalha entre gigantes.

O elfo atacou novamente. Foi um movimento extremamente rápido, na tentativa de pegar Mock de surpresa. Provocou uma finta na parte de cima, na esperança que o Ghoul bloqueasse, enquanto atacou a parte de baixo, de modo a inutilizar a perna de Mock.

Mas Mock percebeu a finta, e apenas recuou um pouco a cabeça, enquanto defendia a perna de seu adversário com o bastão. Ao sentir o impacto, o elfo recuou novamente, de maneira igualmente ágil.

- Essa foi boa. – elogiou Mock.

- Obrigado. – disse o elfo.

Mock então avançou com brutalidade, com um golpe debaixo para cima. O elfo aparou, mas seu bastão voou de sua mão, indo cair no canto da arena, atrás do ghoul.

- Um golpe surpreendentemente forte – disse o elfo, arfando.

- Um dos meus melhores – retrucou o ghoul.

Ambos suavam. O elfo então tentou chutar Mock no rosto, com um movimento circular da perna. Foi um erro.

O ghoul usou novamente de sua incrível força, agarrou-lhe a perna e torceu. O elfo girou junto, na tentativa de amenizar o dano, mas caiu no chão. Mock tentou dar um pisão, mas o elfo girou com agilidade e se colocou de pé. Agora mancava.

Mock aproveitou para avançar, largando o bastão e dando socos. O elfo esquivou-se do primeiro, mas sua perna comprometida não impediu que levasse o segundo, o terceiro e o quarto. A sucessão de golpes fez com que sangue saísse de sua face.

O elfo caiu de joelhos, e Mock aproveitou para dar-lhe o golpe final. Segurou-lhe a cabeça e a jogou contra seu próprio joelho.

 

O elfo caiu desmaiado. O guerreiro perguntou:

- É só isso que vocês tem?

 

A platéia novamente aplaudiu. Estavam diante de um estilo de luta novo, brutal, mas eficiente. Poucos conseguiam vencer um Fedalkin treinado.

- Ninguém mais me desafia? – gritava em tom de bravata.

Foi quando vi Hannor olhar para Caomil, e fazer um sinal positivo com a cabeça.

Caomil levantou a voz, e apenas disse:

- Eu lutarei com você. Mas lutaremos em duas horas, com você descansado e curado.

A platéia fez silêncio. E logo os murmúrios começaram. Haveriam apostas nos bares. Quem venceria? Um Fedalkin-Kin, ou o guerreiro brutal morto-vivo?

Primeira luta

Enuen e Mock olhavam atentamente nos olhos um dos outros, andando em movimentos circulares, calculados. Um deles teria que desferir o primeiro golpe.

- Venha, mocinha. Papai está esperando – caçoava Mock.

O adversário parecia não ligar para a ofensa, mas o clima certamente ficava mais tenso entre eles.

Enuen tentou o primeiro golpe. Foi uma estocada de bastão rápida, indo na direção da orelha direita de Mock. Ele reagiu rápido, com um salto para trás, que o recuou alguns metros.

 

E então a brutalidade começou.

 

No mesmo instante, Mock avançou e atacou, surpreendendo o inimigo com um golpe de extrema violência na altura do peito. O elfo moveu-se rapidamente, mas não pode evitar totalmente o golpe, que atingiu-lhe na cintura. Uma cara de dor passou-lhe pelo rosto.

- O que foi, a menina machucou? Vai ter que fazer melhor do que isso, querida. – caçoou Mock.

E elfo revidou com violência. Era jovem, para os padrões élficos, e agora pretendia ferir o guerreiro. Atacou duas vezes seguidas, com golpes graciosos, que foram aparados por Mock com facilidade. Ele então tentou um golpe violento, mas o elfo esquivou-se para baixo, e aplicou-lhe uma rasteira.

Se não fosse pela enorme força do ghoul, ele teria caído. Mas o chute da rasteira apenas atingiu-lhe a perna, e provocou alguma dor. O elfo também hesitou, pois nunca antes o impacto de uma rasteira havia sido bloqueado daquela maneira. Mock aproveitou-se disso para revidar com fúria, usando toda força do seu corpo para um golpe poderoso. Do chão, o elfo conseguiu aparar, mas o golpe partira seu bastão em dois.

Enuen girou e colocou-se de pé, num movimento rápido. Usando os dois bastonetes como arma, atacou com agilidade e ambidestria. Cada golpe era aparado com velocidade pelo seu adversário, que girava o bastão ainda intacto com maestria.

Mock aparou um golpe, e fez mais uma ação que surpreendeu o adversário. Segurou um de seus braços com força, enquanto se deixou atingir na lateral do corpo.

Ignorando a dor, o ghoul puxou o elfo contra si, e deu-lhe uma cabeçada. O som do estalo do osso contra osso pode ser ouvido por nós, na platéia, e provocou um arrepio nos mais sensíveis.

O elfo estava no chão. Mock levantava os dois braços, comemorando a vitória. A platéria aplaudiu.

Com os elfos

- Você já acordou?

Perguntou-me Salmakya assim que acordei. Ela olhava pela janela, o sol batia-lhe sobre o corpo. Vestia apenas minha camisa, que cobria-lhe até acima dos joelhos.

- Acabei de acordar – disse sorrindo. – Todo aquele treinamento mágico ontem me cansou um bocado.

- Só o treinamento? – me perguntou com um sorriso malicioso.

Eu sorri em retribuição.

- Estive pensando. – ela continuou – Acho que hoje deveríamos ver como seu amigo Mock vai se sair. Ontem Hannor apresentou a ele a nossa cidade, e hoje ele deve praticar com os Fedalkin.

- Por mim está ótimo. – comentei. – Todo aquele ocus pocus pode esperar mais um pouco.

Ela deu uma gostosa gargalhada.

- Ai Caldor. É tão estranho! Primeiro, vejo você dormindo. Agora, você não quer praticar mágica? Acho que quem quer que tenha feito isso com você, bateu realmente forte em sua cabeça. – passou a mão em meu cabelo.

Sorri novamente e falei:

- É, talvez você tenha razão.

- Venha, vamos tomar café. Nada de beijos antes de nós tirarmos esse hálito de javali das nossas bocas.

- Seu desejo é uma ordem, senhora Druida Mestre! – disse fazendo continência.

Ela fez uma pequena careta, e fomos até uma mesa em seu quarto. Lá, havia uma fruteira com algumas frutas exóticas, cultivadas pelos elfos. O sabor delas era realmente muito diferente das frutas de Hoor, mesmo assim, me despertou uma sensação de nostalgia. Os elfos entregaram-me novos trajes, que serviram perfeitamente. Era uma túnica branca, leve e bonita. Salmakya vestiu uma túnica azul deslumbrante. Seu tecido semi-transparente mantinha o seu ar místico, e ressaltava as belezas de seu corpo, sem que isso a tornasse vulgar. Aliás, bem pelo contrário, ao vesti-lo, sua nobreza voltava a tona.

Saímos de sua casa. Como de costume, alguns animais aproximavam-se dela, e ela conversava com cada um deles. Passava a mão em suas cabeças, e eles pareciam realmente felizes com sua presença. Acompanhou-me até o local de treinamento. Mock estava lá, e parecia à vontade. Como sempre, estava com sua armadura pesada, mas estava sem capacete, e parecia bem animado com a batalha que tinha a frente. Ia lutar contra o mais novo soldado Fedalkin.

Fomos até o lado de Hannor. Caminhei até ele sem jeito, pois não sabia qual seria sua reação ao me ver com Salmakya. Ele sorriu e me cumprimentou efusivamente.

- Deus! Como é bom ter você aqui, meu irmão! – falou, para o meu alívio.

Ao seu lado, havia um elfo bastante circunspecto, com longos cabelos e o arco mais perfeito que eu já vira. Hannor me apresentou:

- Este, é Caomil Neren. Está a caminho de se tornar um dos capitães dos Fedalkin-kyn, a nossa topa de elite. É o melhor arqueiro dos elfos, um mateiro experiente, e um guerreiro mortal.

- Nós elfos as vezes nascemos com um dom especial – explicou-me Salmakya – Alguns são muito raros, outros são mais comuns.  Eu, por exemplo, consigo comunicar-me com os animais, saber o que eles setem e pensam. O Hannor não teve nenhum dom especial. Se ter um dom é algo raro, ter dois é algo quase impossível, são poucos casos registrados e geralmente um dom acaba bem pouco pronunciado. Já Caomil, é o único da nossa espécia que se tem notícia com três desses dons, sendo dois deles fortes.

- Nossa! – Exclamei. – E o que ele é capaz de fazer?

- Caomil tem o dom da visão. Isso é o que faz nossos melhores arqueiros. Ele enxerga até seis vezes mais distante do que um elfo comum, e isso é uma marca bastante boa, mesmo para quem tem o dom. Também pode ver coisas que se movem muito rapidamente com nitidez, ou ver detalhes em peças pequenas. Seu segundo dom é o do equilíbrio perfeito. Pode correr sobre o gelo, fazer acrobacias com grande facilidade, ou mesmo atirar com o arco sobre um cavalo, como se estivesse a pé. Finalmente, Caomil também possui o dom da recuperação. É o menos pronunciado dos três, aliás, fraco até para os padrões de quem normalmente possui a habilidade, mas permite que ele se cure mais rápido do que a maioria, seja resistente a doenças e venenos, e certamente, ainda é um diferencial.

Nossa conversa foi interrompida pela arena. Um elfo estava fazendo as apresentações:

- Meus caros amigos. Hoje, veremos uma batalha entre Enuen, o elfo, e Mock, o guerreiro. Peço para que se concentrem em seus movimentos, e vejam o estilo de luta único. Não se enganem. Assim como nosso amigo Fedalkyn, Mock também tem mais de cem a nos de experiência em combate e, após a batalha, poderemos trocar experiências e falar como irmãos guerreiros.

Sentamo-nos todos para assistir.

Um bastão foi dado a cada guerreiro. Mock não gostou muito da substituição, mas não pareceu incomodado. Manejava essa arma com bastante facilidade. Enuen vestia apenas uma armadura leve, mas parecia confiante, e movia-se com agilidade, e não parecia temer o inimigo.

Salmakya segurou a minha mão. Ao que tudo indicava, uma ótima batalha estava para começar.

Daniela

Depois do ocorrido, seguimos a passo e rápido e com mais cautela. Mock achou melhor evitarmos as cidades, e dormirmos em barracas. Marcos contou-me que após desmaiar, continuei murmurando para Mock para não matar os outros dois. Contou-me também que pela primeira vez teve medo do ghoul, ao vê-lo tomado pelo seu lado sombrio, comendo o cérebro do Cicatriz.

“Mas, depois que ele devorou tudo, já parecia o Mock que conhecemos novamente. As mãos voltaram ao normal, os braços já não pareciam tão longos, seu olhar voltou ao olhar de um homem. Ele atendeu seu pedido e o Jack e o Baixinho foram poupados. Ainda que aquele grandalhão tenha ficado com o braço quebrado”, foram as palavras de Marcos.

Não houve maiores incidentes, e em poucos dias alcançavamos as florestas do sul. Diziam ser habitadas pelo que chamávamos elfos, um povo sábio e antigo, muito parecido conosco, mas com orelhas pontudas, um porte físico um pouco mais magro e extrema beleza.

Seguíamos pela estrada oficial. Ao nosso redor, a mata era fechada, com pouco espaço entre as árvores. Samambaias diviam espaço com palmeiras e bromélias. Víamos trepadeiras em algumas árvores. Alguns bichos as vezes apareciam rapidamente, como as capivaras. A noite, saíamos da estrada e montavamos acampamento, ouvíamos o coachar de sapos e o som de alguns macaquinhos.

Foi no amanhecer de um dia, que nos deparamos com o nosso acampamento cercado. Marcos estava fazendo a guarda, e conversava com um deles. Era um homem alto, de cabelos longos e escuros e uma aparência extremamente bela. Notei que os guardas pareciam com ele, tanto no porte físico, quanto na beleza.

- Estes são Jorge e Lucas – disse-me Marcos – capitães dos elfos da floresta. E disseram que nós devemos acompanha-los até a Druida Mestra da região, chamada Daniela.

- É um prazer conhece-los – eu disse – mas estamos com bastante pressa. E não vamos incomodar. Só queremos ir até as terras do Sul, encontrar outros de seu povo.

O elfo respondeu na língua comum, sem qualquer sotaque:

- É com você mesmo que ela deseja falar, Caldor. E nós estamos aqui para garantir que vocês não farão nenhuma desfeita.

Ouvi a risada gutural de Mock. Os elfos olharam para ele, mas não pareciam assustados.

- Ora, ora… isso é uma ameaça? Vou gostar de uma boa briga, para acordar. – disse Alexandre.

- Acalme-se, amigo. – disse Marcos, estendendo a mão. – eles vem em paz, e nós os seguiremos em paz também. Caldor, acho que devemos atender ao pedido deles.

- Bem, quem sou eu para negar um convite de alguém tão importante? – disse sem ter a menor noção da importância real de um Mestre Druída.

Nós iriamos mesmo ter que encontrar com elfos, mas não esperava que fosse tão cedo. Essa mata era longa, e diziam que os altos elfos encontravam-se muito mais ao sul. Eu estava certo quanto ao local aproximado da cidade deles, mas me enganara quanto a extensão de seu território.

O elfo falou alguma palavra mística, e a caminhar pelo meio da floresta tornou-se uma tarefa extremamente fácil. Não precisávamos afastar árvores ou arbustos, pois eles pareciam ter dado lugar para nós passarmos. Quando olhavamos para trás, a floresta ainda parecia impenetrável.

Caminhamos dois dias a passos rápidos, até chegar na cidade. Era uma cidade linda, que misturava construções em madeira, com a própria floresta. Num dos cantos, havia uma depressão profunda, de onde descia uma cachoeira, dando num lago de águas muito cristalina. Era possível ver um altar, naquela parte. Não se viam crianças na aldeia. Todos pareciam jovens, entre dezoito e trinta e cinco anos. Todos belos, com os mesmos cabelos longos. As orelhas pontudas de alguns as vezes despontavam em meio aos fios.

Fomos conduzidos a uma casa muito maior do que as outras, mas lembrava um palácio. Ela era alta, finamente decorada. Havia uma fonte na entrada, com água igualmente transparente, decorada com a estátua de três guerreiros, extendendo as mãos um para o outro.

Entramos na casa, e fomos parar em frente a uma espécie de sala de trono. De pé, estavam os dois governantes, um homem de trinta anos e barbado (e era muito raro ver alguém de barba) e uma mulher linda, de cabelos curtos, pretos, com um olhar felino tão verde quanto as folhas da região.

- Caldor! – disse com alegria, correndo e me abraçando – meu Deus, é você mesmo?

Correspondi ao abraço, e ela então olhou meu rosto. Percebendo minha confusão, ela se afastou tímida, e falou.

- Meu, Deus, o que fizeram com você?

- Desculpe-me. Não consigo me lembrar. – disse com sinceridade. O olhar dela entristeceu.

- Eu sou Daniela, alta druída. – Disse apresentando-se para mim e para os outros. – E sentado naquele banco está Hannor, meu irmão.

- É um prazer conhece-la. – disse Marcos com uma reverência. Mock só balançou rapidamente a cabeça concordando.

- Estávamos a sua espera, Caldor. Ouvimos falar de sua viagem. O que traz vocês até aqui?

- Nosso amigo precisa de algumas memórias – disse Marcos – e quem melhor para ajuda-lo do que sua antiga tribo?

A declaração de Marcos não me pegou de surpresa. Já havia reconhecido a grafia dos elfos na inscrição do cadeado e do baú e, portanto, já deduzira que eu estivesse por aqui.

- Será um prazer ajudar. – disse Daniela, visivelmente contente – venham, vou mostrar os seus aposentos.

Hannor falou então pela primeira vez:

- Mock. Não se sinta constrangido em meio ao nosso povo. Aqui sua fome não chegará por todo tempo que ficarem. E os elfos não tem medo de magia, seja ela necromante ou não. Mas solicito que me acompanhe, pois temos muito o que discutir.

- Meu irmão é capitão da guarda – explicou Daniela. – Ele comanda os Fedalkin, nosso exército de elite. E gostaria de trocar experiências com Mock.

No dia seguinte, Daniela acompanhou-me até o templo. Descemos por uma longa escada, feita de troncos redondos. Lá embaixo, havia uma espécie de fonte, mas no lugar da água, havia somente terra. O chão da construção era feito de tábuas, e uma parte dele extendia-se por sobre o lago, dando uma vista privilegiada. No fundo, viam-se carpas coloridas.

- Não acredito que seja incapaz de lembrar disso aqui. – Disse-me Daniela. – Você mesmo ajudou-nos a construir esse lugar. Este lago agora para nós é sagrado, e alguns elfos mais sensíveis vem até aqui para concentrar-se no futuro.

- Me parece familiar, não posso negar. – respondi – mas não consigo.

- Bem, é aqui que começamos o ensino de magia de qualquer elfo. Vai ser engraçado dar essa aula à você, já que foi você mesmo quem criou esse método.

- Pensei que elfos fossem ligados à magia – disse.

- Sim, nós sempre fomos. Mas antes de sua aparição, tínhamos apenas a nossa magia natural, sem nenhum tipo de estudo. Você nos ensinou a teoria e a controlá-la.

- Há quantos anos foi isso? – perguntei.

- O primeiro ensino foi para a minha avó, a mais de mil e duzentos anos.

Aquele número me assustou. Eu já sabia que era mais velho do que julgava, mas mil e duzentos anos? E pelo que ela falou, eu já era experiente naquela época. Quantos ano será que eu teria?

- Venha. Vamos começar com o primeiro ensino.

Aproximou-se da terra e disse:

- Esse é nosso terrário. Aqui no centro, colocarei essa semente. É de uma árvore. Cada mago aqui, tem uma árvore, que indica sua instrução em magia. Irei mostrar a sua depois. É uma árvore sábia e antiga. Você deve se concentrar, sentir a semente, e desejar doar parte de sua vida a ela, para que ela cresça.

Fechei os olhos e me concentrei. Pensei que seria muito difícil, mas assim que comecei, percebi que estava enganado. Em poucos segundos, sentia a semente sob minha mão. Sentia a terra ao redor dela. E sentia que pulsava com vida. Daniela posicionou-se ao meu lado, e segurou meu braço comigo. Pude sentir seu delicado perfume de flores e senti meu coração se acelerar.

- Agora, concentre-se Caldor. – sussurou em meu ouvido – Sinta a semente, sinta a vida. E pense que ela deveria crescer, compartilhe com ela o desejo de se desenvolver, de crescer também.

Concentrei-me, e claramente me veio a cabeça a imagem da semente se abrindo, de um arbusto saindo, e de uma flor desabrochando. Senti a energia correr por meu braço de maneira suave, e atingir a semente.

- Abra os olhos. – disse-me Daniela, com sua voz suave.

Ao abrir, precebi estar diante de uma flor vermelha, aberta, tal como eu havia imaginado.

- Não era uma árvore. – constatei. – e que bela flor.

- Não, não era. – Ela ainda estava muito próximo de mim, e seu hálito tinha um aroma suave. – A sua árvore já foi plantada. Os alunos levam meses para realizar essa lição, e você fez agora, em poucos minutos. Acho que não será difícil dar um jeito de em você. E sorriu.

Ao ver o sorriso, olhei em seus olhos, e falei em élfico, sem sotaque.

- Salmakya.

Ela olhou-me espantada, sorriu e me beijou. Correspondi ao seu beijo com alegria: ela era minha primeira lembrança.

Fuga

Ainda ficamos um dia inteiro na cela. Marcos voltou a ficar comunicativo, e conversavamos algumas amenidades. Nenhum de nós queria falar sobre a prisão e o fato de sabermos que Mock estava do lado de fora era muito reconfortante.

Durante a noite, ouvimos a porta abrir silenciosamente. Era Jack. Ele caminhou até Marcos, que já dormia profundamente.

- Frei… frei… – disse chacoalhando, Marcos.

- É melhor você esquecer, amigo. – eu disse – o Marcos quando dorme, morre por algumas horas.

Ele caminhou na minha direção. Chegando perto, vi que possuia uma pequena ferramenta improvisada. Aproximou-se das correntes que me prendiam, e colocou a ferramenta nas fechaduras.

- Eu vou soltar vocês dois. Depois, saiam daqui. Não tenho muito tempo. Seu amigo está lá fora, e está estranho. – Ao dizer isso, ouvir um “click” no interior da primeira corrente, e ele a abriu. – Prometa-me que o seu amigo não vai fazer mal ao grandalhão. Ele é como um pai para mim.

- Bem, isso não posso prometer – eu disse com sinceridade – entretanto, posso prometer que irei fazer o possível para que ele não o mate.

Ele balançou a cabeça concordando.

- Isso basta.

Outro click. Eu estava completamente solto.

- Você consegue carrega-lo? – disse se referindo ao Marcos. – como irá fazer?

- Deixe comigo. – respondi.

Ele soltou as correntes e saiu rapidamente do quarto. Por azar, no lado de fora, cicatriz o esperava.

- O que você foi fazer no quarto dos dois? E como entrou lá? Você não tem a chave.

Ouvindo isso, fiquei quieto. Os próximos momentos eram decisivos. Foi então que tive uma idéia. Desejei a presença do meu bastão. Subitamente, lá estava ele, na minha mão.

- Eu… eu fui falar com o padre. Precisava me confessar. – respondeu Jack.

- Sabe o que eu faço com garotos que falam demais, não sabe? – disse isso, sacando a faca.

Enquanto isso, eu chacoalhava Marcos, que dava os primeiros sinais de que estava acordando. Marcos começou a murmurar algo sobre a igreja. Então, tive uma idéia. Segurei-lhe fortemente no braço e cochichei em seu ouvido

- Prepare-se para correr. A igreja está pegando fogo, e ele logo chegará aqui.

Marcos arregalou os olhos e assentiu, dizendo.

- Está bem. Tomara que consigamos salvar o relicário. O bispo diz que no interior dele estão os pertences do próprio Solomin.

No lado de fora, Jack argumentava:

- Calma, Cicatriz, você me conhece. Sou eu, o Jack, ok?

O baixinho passou o dedo na lateral do rosto de Jack, e colocou na boca.

- Que tipo de pessoa sua no escuro, numa noite fresca como essa? – falou. – Alguém que está mentindo. Você é bom nisso, garoto, mas ainda não é tão bom.

Dizendo isso, golpeou Jack com um movimento rápido, na perna. Não queria mata-lo, apenas puni-lo. Jack caiu no chão, gritando, e isso acordou o Baixinho.

- O que está havendo? – gritou do quarto.

- Eu cuido disso. – repondeu, Cicatriz.

- Qual é, Cica. Não maltrata o garoto. – gritou novamente do quarto.

- Eu cuido disso, já falei. Volte a dormir, vou ver como estão os presos.

Ouvindo isso, me coloquei na frente da porta, e estiquei meu bastão na altura da cabeça do bandido. Agora, teria que confiar no que aprendera. Quando ele abriu a porta, desejei com todas as minhas forças que o bastão brilhasse intensamente.

O bastão atendeu. O brilho de mil tochas iluminou o local, com intensidade tal que despertou até a atenção de Marcos e do grandalhão no outro quarto. Cicatriz começou a gritar:

- Meus olhos! Bruxaria!

Dei um golpe nas mãos dele e o desarmei. Marcos, após o clarão, gritou:

- É o fogo! fogo na igreja!

E saiu correndo, sonâmbulo. Tropeçou na pequena mesa da sala. Sobre ela estava a bainha da faca, e ele segurou como se fosse preciosa. Gritou para mim:

- Bispo! Estou com o relicário! Corra!

O grandalhão saia do quarto armado com um machado. Viu Jack no chão e o frei com a bainha da arma. Pelo seu olhar, deduziu que quem agredira o garoto foi o frei. Correu com o machado na direção dele. De onde eu estava, pude fazer pouco, cicatriz começava a se recuperar do clarão, e tive de bater nele com o bastão.

O frei estava parado, estático. Provavelmente começava a despertar do sonho, sem entender o que ocorria.

Foi então que Mock apareceu. Arrombou a porta com um chute forte. Estava sem elmo e sem luvas, e com um olhar diferente do que eu já havia visto. As garras estavam afiadas, e a boca exibia uma série de dentes, horrendos e afiados. Estava com fome.

O grandão o atacou. Mock segurou o machado em movimento e freou o golpe, numa demonstração impressionante de força. Num outro movimento rápido, segurou o braço do grandalhão e torceu. O membro quebrou imediatamente.

Eu gritei:

- Mock! Não! Esse aqui!

Apesar da frenesi, o ghoul entendeu. Seus braços estavam alongados e percebi que agora corria de quatro, a grande velocidade. Antes disso, porém, o baixinho, que atendia pelo nome de Cicatriz, sacou uma faca com a mão esquerda, que estava escondida na parte de trás da calça e me atacou. Mal tive tempo de perceber o que ocorria, mas ele me atingiu no pescoço. O sangue jorrou – ele acertara um ponto mortal, usando sua mão canhota.

Caí no chão, e Mock já estava lá. O sangue ainda escorria. O resto, ocorreu muito rápido, enquanto eu perdia os sentidos.

Mock estava sobre o Cicatriz, que ainda lutava. Ouvi o som da faca do bandido penetrar a carne do ghoul, que aparentemente ignorou o fato. Vi as garras do ghoul segurando a cabeça do baixinho. O corpo dele cai ao meu lado. Vejo o ghoul debruçado sobre ele.

- Cérebro. – disse Mock.

Foi a última fala que ouvi, antes de desmaiar.

Jack

Pude conversar um pouco com Marcos, mas ele estava estranhamente silencioso. Não falou sobre o incidente com Jack e, quando eu lhe perguntava sobre Mock, simplesmente falava para termos fé em Deus, e que tudo daria certo.

Ao entardecer, o garoto voltou ao cativeiro. Era difícil precisar que horas eram, pois a sala ficava muito escura, com a luz entrando apenas pela fresta. Ele entrou no quarto, com comida enrolada num pano e uma jarra, e olhou para Marcos com um misto de medo e curiosidade.

- Trouxe pão e leite para os dois. É bem mais do que eu deveria ter trazido. – disse, diretamente para o frei.

- Obrigado – respondeu Marcos.

Ao perceber que o frei não fazia nenhum outro comentário, Jack continuou:

- Seu guarda-costas está lá fora, desde ontem. Chegou pouco depois do Cicatriz e do Baixinho. Tentei cobrir os rastros e desvia-lo para outra direção, mas foi inútil. Isso nunca havia acontecido antes. Seja lá quem quer que tenham contratado, é muito bom. Só não entendi porque ele ainda não os tirou daqui. Do jeito que está armado, poderia ter nos rendido durante à noite.

- Ele não é nosso guarda-costas – eu disse – é um amigo. Pude perceber que você não gosta do que está fazendo, por que compactua com os dois?

O garoto balançou os ombros. Pensou um pouco e completou:

- Eles me dão casa e comida, eu acho. E, desde que meu pai morreu… – e nesse momento olhou para o Marcos, como se o frei fosse revelar alguma coisa – são eles que cuidam de mim.

- Quantos anos você tinha? – Marcos perguntou

- Cerca de doze. Meu pai foi colega do Baixinho num navio. O grandão é feio, mas tem bom coração. Quando eu tinha uns dez anos, o Baixinho conheceu um homem conhecido como Mágico, que conseguia fazer truques, como fazer desaparecer pequenos objetos. Eu me interessei por eles, e ele os ensinou para mim. Achei tudo muito legal, e percebi que eu tinha jeito para a coisa. Depois de um ano, o Baixinho resolveu aproveitar meu talento para roubar as pessoas. Estávamos tendo um bom lucro, e eu me divertia, quando meu pai descobriu. Ele brigou comigo, discutimos muito e alto, pois eu ganhava dinheiro, e gostava daquilo. Na manhã seguinte, antes de sair, ele falou para eu pensar, e me perguntou porque eu estava fazendo aquilo – nesse momento, olhou longamente para Marcos. – Nesse dia, ele saiu de casa, pegou um navio, e nunca mais voltou. Perguntar o que eu estava fazendo, foi a última pergunta que ele fez a mim. Tempos depois, descobrimos que ele havia morrido, e de um jeito bastante patético. Não sei porque, mas acabei me culpando, achando que ele havia morrido de desgosto, e a viagem ou a causa da morte, havia sido apenas uma desculpa.

- Engraçado você dizer que o grandão tem bom coração – comentei acidamente – segundo o Cicatriz, ele faria nosso amigo de mulher e teria prazer de matar nós dois.

O garoto sorriu.

- Duvido muito. Ele mataria em batalha, ou talvez atordoasse e capturasse vocês, mas matar a sangue frio, duvido muito. Entretanto, é do Cicatriz que vocês devem ter medo. Ele sim, é perigoso. Muitos subestimam o seu tamanho, mas ele é muito rápido, não só com a espada e em todos os seus movimentos, mas também tem a mente afiada. E ele tem poucos escrúpulos. Foi ele que começou a gangue, já esteve envolvido em crimes mais sérios.

- E, por que está nos contando tudo isso? – perguntei.

- Bem… por dois motivos. Primeiro, porque realmente não concordo com esse sequestro. Vamos ficar realmente encrencados, caso sejamos pegos. Furtar velhas senhoras é uma coisa, capturar um homem rico e seu colega da igreja é outra. Segundo, porque está na hora de conhecer novos ares, e vou fazer isso longe dos dois.

Marcos olhou fundo nos olhos dele. O garoto acompanhou o olhar. Então Marcos segurou-lhe nas mãos, balançou a cabeça concordando enquanto dizia:

- E terceiro?

O menino pareceu desamparado, e então falou, com certa dificuldade:

- E terceiro… porque… ontem… você falou como meu pai… e pude perceber que no fundo não quero tudo isso. A forma que você perguntou foi… assombrosamente parecida. E, pode parecer loucura, mas acho que libertar vocês e sair daqui, vai me libertar desse peso na consciência também.

Dizendo isso, Jack saiu rapidamente pela porta, envergonhado, e a trancou. Ouvimos os outros dois perguntando a ele porque havia demorado tanto na nossa sala, e ele disse que preferiu se certificar que nenhum de nós tinha nenhum ferimento mais grave, e que não estávamos morrendo.

Marcos sorria em seu canto e, enquanto Jack argumentava com os bandidos do lado de fora. Virou para mim e falou:

- Muito bem… muito bem… o garoto está crescendo.

Cativeiro

O grandalhão me apagou logo depois da captura, acordei algumas horas depois, com os braços e pernas amarrados, vendado, na traseira de uma carroça. Era possível sentir o balançar e as pedras do caminho, que parecia ser uma das estradas secundárias. Havia um cheiro forte de trigo e provavelmente haveria sacas conosco na carroça.

- Marcos. – falei.

- Estou aqui, Caldor – o frei parecia tranquilo. – Desculpe no quarto, não me lembro de nada do que ocorreu. Eu estava dormindo.

- Como vamos sair daqui? – perguntei. – Será que Mock nos viu?

- Bem, nosso bom Deus sabe o que faz. Mas não custa torcer para que Mock também saiba.

Algumas horas depois, a carroça parou. Um dos bandidos foi até lá falar conosco:

- Senhoras, eu sou conhecido como Cicatriz, disse o mais baixo, com cara de inteligente. E meu colega bonito ali é chamado de Baixinho – falou referindo-se ao homem grande, da cicatriz. – Daqui a pouco, vamos passar por um dos postos policiais, e colocaremos vocês dentro de dois sacos de trigo. Se algum dos dois fizer alguma gracinha, vocês morrem, estamos entendidos?

Balancei a cabeça que sim. Eles nos amordaçaram e nos colocaram dentro das sacas. Jogaram outros sacos por cima. Os policiais inspecionaram a carroca, e pouco depois estamos em movimento novamente. Passaram mais algumas horas, até que nos descarregaram numa cabana.

Meus corpo todo doía, pelas várias horas na posição estranha deixada pelas cordas. Os de Marcos estavam bem vermelhos, mas ele mantinha a serenidade, sem reclamar da dor. Dentro da cabana, nos prenderam em um quarto com janelas, uma parede e portas reforçadas. Éramos presos a parede por correntes, pelo tipo de estrutura, parecia ser uma espécie de delegacia ou prisão abandonada. Do lado de fora, pude ouvir uma conversa. Havia um terceiro integrante na quadrilha, alguém com voz de menino.

- Jack, você cuida dos dois – disse cicatriz, o líder da gangue.

- Chefe, por que não voltamos ao roubo? Um seqüestro? Não acha muito arriscado?

- É por isso que você só cuida dos dois, e nós fazemos o serviço sujo. Além disso, o mercador ali é uma bolada, e das grandes. O padre deve valer alguma coisa e, se não valer, o Baixinho vai gostar de faze-lo de mulher e depois dar cabo dele. Vamos ter mais dinheiro do que em mil roubos. Cansei de pegar colares e anéis de madames.

- Mas…

- Nada de mas! E sem gracinhas, entendeu? A polícia não vai querer saber se você concordou ou não com o plano. Se você está aqui, está tão metido nisso quanto nós dois. Agora, vá encobrir os rastros, e deixar trilhas falsas. O guarda-costas deles deve estar atrás de nós, e se você continuar choramingando, ele chegará aqui em poucas horas. Então, faça algo de útil, e vá cobrir os rastros. Depois, prepare aquela sua sopa para nós, e sirva um pouco para os presos.

- Está bem.

Dizendo isso, ambos saíram da casa. Tentei gritar mas, como já imaginava, foi em vão. A única abertura através da janela apenas exibia um campo de trigo, e certamente estaríamos a quilômetros da civilização mais próxima. Marcos ficava quieto, e as vezes fechada os olhos para orar.

Horas depois, o garoto estava de volta. Ouvi o som de pratos, e logo comecei a sentir um agradável aroma de sopa. Ele reclamava da vida enquanto cozinhava, e Marcos parecia atento ao que dizia. Na maior parte, era reclamação dos serviços domésticos.

Pouco tempo depois, ele entrou na sala. Serviu a sopa para mim, e então para Marcos. O frei pegou o prato, e olhou profundamente nos olhos do rapaz. Então, falou pela primeira vez desde que entramos na cabana:

- Por que faz isso, meu filho?

Foi uma única frase, uma única pergunta. O garoto olhou assustado, entregou o prato e saiu as pressas. E não pude deixar de notar: ele estava chorando.

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