Depois da luta, Salmakya me pegou pela mão e me levou por uma trilha, com pedras. Vimos um local menos arborido, onde os elfos cultivavam algumas plantações.
- Nós nos alimentamos com muitos alimentos silvestres – explicou – mas não descartamos a horticultura, desde que ela não agrida a floresta.
Como tudo, nunca vira plantas tão bem cuidadas. Os elfos tinham muito zelo por tudo, e para eles, dedicar horas a fio nas tarefas mais simples era cotidiano. Afinal, para quem tem a eternidade pela frente, o que são algumas horas?
Foi então que chegamos num enorme jardim. Era cercado por flores, e, no centro dele, estava uma árvore gigantesca. Quatro caminhos levavam a ela, a partir dos quatro pontos cardeais. Seu tronco devia ter a largura de três ou quatro casas. Suas folhas ficavam em galhos altíssimos.
Ao nos aproximarmos, Salmakya falou:
- Essa é a Árvore-Mãe. Uma das poucas coisas na floresta que modificamos. Dentro dela está o nosso salão mais importante, onde guardamos os bens mais preciosos dos elfos.
Circundamos a árvore, e vi a porta finamente entalhada. Ao lado dela, dois guardas Fedalkin-kin estavam apostos.
- Está tudo bem. – Salmakya falou aos guardas, quando me olharam. Um deles, me olhava com admiração.
- É uma honra tê-lo aqui novamente, senhor. – disse-me o guarda. – já fazem muitos anos.
- Obrigado – respondi sem entender.
As portas se abriram, e exclamei:
- Mas são…
- Isso mesmo, crianças. – disse Salmakya. – nosso maior bem.
Havia dentro da árvore uma sala ricamente iluminada. As paredes eram esculpidas, com estátuas de diversos elfos importantes. Havia também longas bandeiras grudadas, contendo um ideograma em cada, representando uma virtude. Havia diversos brinquedos no chão, livros, e locais confortáveis, como almofadas e tapetes macios.
No centro da sala, encontrava-se Marcos. Brincava alegremente com as crianças. Os rostos felizes o rodeavam, enquanto ela gritava, fingia de cavalo, ou contava histórias malucas, inventadas na hora sobre tartarugas voadoras, ou bodes falantes.
- E vejo que seu amigo encontrou o local perfeito, não é? – disse Salmakya sorrindo. A forma que olhava as crianças e seu sorriso exuberante me deixaram atordoado. Como uma mulher poderia ser assim tão linda e tão forte ao mesmo tempo? Mas ao mesmo tempo, percebi a tristeza em seu olhar.
- O que foi, querida? – perguntei.
- Cada criança aqui, também representa a morte de um elfo, meu amor. Nós somos diferentes dos humanos. Uma elfa só engravida quando alguém morre, caso contrário, não haveria lugar no mundo para tantos de nós. Dessa forma, nosso número mantém-se constante há milênios. Não se trata de uma lei nossa, mas de um processo natural.
- Impressionante. O número da tribo nunca muda?
- As vezes, uma elfa dá a luz a gêmeos, ou a um filho sem morte. Essa criança é considerada uma benção e, nesses anos, fazemos uma grande celebração.
Uma pequena elfa aproximou-se de mim, e falou, em élfico. Eu já era capaz de entender as palavras, que vinham a mim com fluência desde que lembrei-me de Salmakya:
- Caldor, Caldor, faz uma mágica para a gente?
- Quantos anos você tem, minha querida? – perguntei.
- Tenho trinta e dois. – disse a menininha, para a minha surpresa.
- E que mágica você gostaria de ver?
- Algo com flores! – ela respondeu.
- Agora o Caldor não vai poder – intercedeu, para o meu alívio, Salmakya – ele está meio doente. Por que você não mostra algumas mágicas para ele?
A menina então mexeu as mãos, e várias borboletas luminosas apareceram no céu, com várias cores. As crianças viram, e outras fizeram aparecer outros animais, cheiros e sons. E logo o salão estava cheio de luz e vida.
- É impressionante! – falei.
- Os elfos nascem com o dom da magia a flor da pele. Todas as crianças o tem, e é muito forte. Isso pode trazer acidentes também, por isso, elas ficam separadas aqui.
Em meio ao turbilhão de cores, notei que uma aura começou a brilhar em torno de mim. Era muito luminosa, branca, incomodava os olhos.
Os elfos tinham uma aura tênue, esverdeada, e Marcos brilhava com um amarelo muito pálido e muito fraco. A aura das crianças era visivelmente mais forte que a da Salmakya.
- O que são esses brilhos?
- Ah, vejo que sua aptidão mágica também está se desenvolvendo aqui. O que você vê, é a aura mágica de cada pessoa. A cor indica a raça. Elfos tem essa luz verde, por causa de nosso contato com a natureza. Os humanos tem um brilho amarelo, e, quando é tão apagado, é porque não tem nenhuma aptidão para a magia, como é o caso do seu amigo Marcos.
- E a branca?
- A branca e quase ofuscante que você tem, Caldor?
- Isso mesmo.
- Essa, só você tem. Nunca vimos nada igual. Trouxemos seu amigo Mock aqui, e ele possui duas auras. Uma delas amarela, tênue, e sobre ela uma negra, que assustou as crianças.
- Interessante. – falei
- De qualquer forma, você poderá visualizar essa aura sozinho e fora daqui, se quiser. Mas será mais tênue. A de quem não tem aptidão você não verá por completo, e será mais difícil distinguir as cores.
Marcos então afastou algumas crianças, e finalmente veio falar conosco. Estava visivelmente feliz.
- É impressionante! É impressionante! Algumas crianças aqui são mais velhas do que eu, meu amigo, no entanto, ainda são crianças.
- Pelo visto alguém vai mudar de profissão. De padre à babá? – perguntei em tom de deboche.
Marcos sorriu.
- A proposta é tentadora, mas o que seria das crianças morais, meu amigo? Há adultos que certamente precisam de tratamento mais dedicado que essas crianças. E elas estão em ótimas mãos. – fez uma reverência à Salmakya.
- Obrigada – disse ela. – Nossa administração realmente dedica uma considerável parte de nossos recursos a esse local.
Dizendo isso virou-se para atender a uma criança elfa, que puxava a saia dela insistentemente.
- Sal. Podemos brincar com o squarch?
Ela sorriu e disse:
- É claro. Mas tomem cuidado, se vocês apertarem ele, já sabem…
- Tá. Não quero ficar paradinha de novo.
- O sapinho tem um veneno que paralisa os oponentes – explicou-nos. – as crianças as vezes disparam esse mecanismo acidentalmente. Não mata e, de fato, algumas já até brincaram de ficar congeladas. É útil em batalhas também.
Ela colocou uma mão sobre a outra, fechou os olhos e falou algumas palavras. Quando as abriu novamente, uma pequena rã, de uns quatro centrímetros, apareceu. Ela entregou para a menina:
- Está aqui, querida.
- Que bonitinho – exclamou Marcos.
Conhecemos diversas crianças, até que Salmakya me mostrou uma em especial. Tinha uma aura muito forte, e já era quase um adolescente.
- Esse é Asuphel. Ele nasceu com um dom muito pronunciado para magia, e muito peculiar.
- Olá, Caldor. – disse o garoto. – é bom ver meu tutor novamente.
- Olá, Asuphel. – respondi.
- Asu, você pode ajudar o Caldor, como conversamos?
- Vou tentar – disse.
O garoto encostou a mão em minha cabeça e pronunciou algumas palavras místicas. Fui bombardeado com um jorro de memórias. Os ensinamentos que dei a ele, de magias básicas até intermediárias. Brincadeiras que fizemos. Depois, vi imagens dele sozinho, da relação com os pais, do primeiro amor, de coisas que ele não queria que eu visse.
Olhei em seus olhos, quando tudo terminou.
- Essas são as minhas memórias. – disse-me.
- Sou grato por elas. – respondi com sinceridade. – E sinto-me honrado por compatilha-las comigo. E, fique tranquilo. O que aprendi, guardarei para mim.
- Eu sabia que podia confiar em você. Agora estou muito cansado, a magia me desgastou.
Eu agora sabia o porque. Ouvi a mim mesmo explicando nas memórias do garoto. “Quando você usa a magia, você coloca parte de sua energia vital no processo. É por isso que magos envelhecem mais cedo. Só com o controle que você poderá deixar de perder anos, para perder minutos.”
- Mas há mais algo que quero compartilhar com você. – falou. – mais algumas memórias. Será rápido.
Ele encostou a mão na minha cabeça. E vi novamente.
Salmakya estava lá, comigo. Estávamos conversando e o garoto olhava a conversa. Ela estava triste, eu também, mas ele não conseguia entender direito o que falávamos. Eu estava com o rosto sério, e então, a beijei. Um beijo intenso, que ela deu com tristeza. Logo em seguida, fui embora da sala, a passos rápidos e decididos, visivelmente abalado. Ela se virou, e estava chorando, tentando ser forte.
- Esse foi meu último dia aqui, certo? – perguntei assim que a visão acabou, já sabendo a resposta.
Ele balançou a cabeça positivamente e foi se deitar.
Olhei para Salmakya e seu olhar me lembrou de algo que eu temia. Nossa viagem não estava no fim, e aquele momento chegaria outra vez. Os tempos felizes com os elfos estavam chegando ao fim.