Acordei numa manhã ensolarada. Salmakya novamente olhava pela janela, apreciei por alguns segundos a sua beleza estonteante. Notei que tinha o rosto contemplativo.
- Bom dia, querida. – disse da cama, com a voz ainda estranha.
- Bom dia. – ela sorriu. Mas notei que foi um sorriso triste.
Fui até ela, a abracei a beijei na testa. Ela sorriu novamente, ficou mais claro que ela estava visivelmente chateada.
- O que aconteceu? – perguntei enquanto ainda me expreguiçava, após dar-lhe uns minutos de silêncio.
- É hoje, Caldor. Hoje vocês devem partir. – disse-me apontando as roupas, já separadas para a viagem.
Senti suas palavras como uma faca, enfiada em meu peito. Por que eu deveria sair? Minhas lembranças estavam voltando e eu estava ao lado da pessoa que, definitivamente, escolhi para estar ao meu lado, pelo resto dos meus dias.
- Você sabe… – ela continuou, um pouco hesitante, e virou-se de costas. – ambos temos resposabilidades, maiores que nós mesmos. Maiores até…
Não quis continuar, pois suas palavras estavam misturadas às lágrimas, que já chegavam. Mas pude captar o recado, “maiores até do que nosso amor”. Eu estava triste, uma revolução de sentimentos avassalava meu peito. Queria chorar e sentia raiva. Mas meu semblante não denunciava meu sofrimento.
- Eu amo você, Salmakya. – disse simplesmente.
Ela se virou, e pequenas gotas novamente mostravam seu sofrimento. Demos as mãos e ela me beijou novamente.
- Eu também te amo.
Ficamos assim, parados, por alguns segundos. A cabeça dela no meu peito, apenas sentiamos o calor de um pelo outro. Ela então levantou a cabeça, enxugou as lágrimas.
- Quero te dar um presente. – disse-me, enquanto eu me vestia.
Então colocou as mãos uma sobre a outra, em forma de concha, e pronunciou algumas palavras na língua da magia. Senti um pulso de energia cruzando a sala e indo em direção a sua mão. Ao abrir, lá estava um grande rubi.
- Esta jóia chama-se coração solitário. Está com a minha família a dezenas de gerações, desde que os elfos sequer tinham contato com os humanos. Nela, depositamos boa parte de nossa energia. Quero que fique com você.
- Amor, eu não posso aceitar. – disse, percebendo a importância da pedra – sei que é importante demais para você.
- Ela carrega parte de mim, Caldor. E através dela, saberei se está em perigo, ou precisando de ajuda. Encaixe-a em seu bastão, na área oca que tem na frente.
Ela depositou a jóia em minha mão. Sorri timidamente e peguei a pedra com delicadeza. Encaixei-a no bastão gentilmente. A pedra e o bastão fundiram-se com naturalidade, como se o buraco no centro da arma fosse feito sob medida. Ou como se a madeira estivesse anciando pela pedra, correspondendo ao meu desejo de ter parte de Salmakya sempre comigo.
Sorri para ela.
- É bom saber que carregarei comigo um pedaço de ti. – disse com sinceridade.
Novas lágrimas vieram aos olhos dela, e ela me abraçou. Foi então, que uma memória invadiu minha mente. Nela, estavamos nós dois, nesse mesmo quarto, abraçados. Mas naquela memória, eu partia, impelido pela necessidade, e deixava para trás uma Salmakya ainda mais apaixonada, disposta a se sacrificar por mim, a fugir comigo.
Mas agora, era ela quem fazia o sacrifício voluntário, e era eu que não queria partir. Me arrependi por um momento, pois eu poderia estar feliz ao seu lado.
- A vida de outros depende de nós, não é? – ela falou, baixinho, sem esperar sem ser respondida. A mesma frase ecoou em minha memória, dita antes por mim com determinação, no passado.
- Depende sim, meu amor. – disse com uma nova resolução mas finalmente, com lágrimas nos olhos.
Virei em direção a porta, pela qual havia saído sem remorsos no passado, mas agora ela parecia distante demais para que conseguisse dar um passo a frente. Olhei para trás e vi que Salmakya estava de costas para mim, olhando através da janela.
- Você… Vocês precisam partir. -Disse mais uma vez, sendo interrompida por um breve soluço.
Ela não se moveu. Sabendo que não teria escolha, saí a passos largos daquele ambiente que trazia tantas lembranças. Olhei ao meu bastão e uma lágrima, que há muito parecia estar guardada, escorreu pelo meu rosto. Sequei-a como se a visão dela fosse ferir meu orgulho.
Encontrei Marcos e Mock esperando. Mock vestia sua armadura pesada e Marcos usava suas roupas de viagem. Tentei não olhar nos olhos de nenhum deles, pois sabia que não aguentaria segurar minha emoção caso sentisse, ou visse, o que sentiam.
-Bem-Falei tentando parecer um pouco mais animado.-Acho que é isso. Vamos?-Olhei para meus amigos que não haviam se movido.-Vamos?-Tentei novamente. Marcos fez um sinal para esperar.-Estamos esperando algo?
-Caomil Neren vai conosco.-Disse Mock com um sorriso amarelo.