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Com os elfos

- Você já acordou?

Perguntou-me Salmakya assim que acordei. Ela olhava pela janela, o sol batia-lhe sobre o corpo. Vestia apenas minha camisa, que cobria-lhe até acima dos joelhos.

- Acabei de acordar – disse sorrindo. – Todo aquele treinamento mágico ontem me cansou um bocado.

- Só o treinamento? – me perguntou com um sorriso malicioso.

Eu sorri em retribuição.

- Estive pensando. – ela continuou – Acho que hoje deveríamos ver como seu amigo Mock vai se sair. Ontem Hannor apresentou a ele a nossa cidade, e hoje ele deve praticar com os Fedalkin.

- Por mim está ótimo. – comentei. – Todo aquele ocus pocus pode esperar mais um pouco.

Ela deu uma gostosa gargalhada.

- Ai Caldor. É tão estranho! Primeiro, vejo você dormindo. Agora, você não quer praticar mágica? Acho que quem quer que tenha feito isso com você, bateu realmente forte em sua cabeça. – passou a mão em meu cabelo.

Sorri novamente e falei:

- É, talvez você tenha razão.

- Venha, vamos tomar café. Nada de beijos antes de nós tirarmos esse hálito de javali das nossas bocas.

- Seu desejo é uma ordem, senhora Druida Mestre! – disse fazendo continência.

Ela fez uma pequena careta, e fomos até uma mesa em seu quarto. Lá, havia uma fruteira com algumas frutas exóticas, cultivadas pelos elfos. O sabor delas era realmente muito diferente das frutas de Hoor, mesmo assim, me despertou uma sensação de nostalgia. Os elfos entregaram-me novos trajes, que serviram perfeitamente. Era uma túnica branca, leve e bonita. Salmakya vestiu uma túnica azul deslumbrante. Seu tecido semi-transparente mantinha o seu ar místico, e ressaltava as belezas de seu corpo, sem que isso a tornasse vulgar. Aliás, bem pelo contrário, ao vesti-lo, sua nobreza voltava a tona.

Saímos de sua casa. Como de costume, alguns animais aproximavam-se dela, e ela conversava com cada um deles. Passava a mão em suas cabeças, e eles pareciam realmente felizes com sua presença. Acompanhou-me até o local de treinamento. Mock estava lá, e parecia à vontade. Como sempre, estava com sua armadura pesada, mas estava sem capacete, e parecia bem animado com a batalha que tinha a frente. Ia lutar contra o mais novo soldado Fedalkin.

Fomos até o lado de Hannor. Caminhei até ele sem jeito, pois não sabia qual seria sua reação ao me ver com Salmakya. Ele sorriu e me cumprimentou efusivamente.

- Deus! Como é bom ter você aqui, meu irmão! – falou, para o meu alívio.

Ao seu lado, havia um elfo bastante circunspecto, com longos cabelos e o arco mais perfeito que eu já vira. Hannor me apresentou:

- Este, é Caomil Neren. Está a caminho de se tornar um dos capitães dos Fedalkin-kyn, a nossa topa de elite. É o melhor arqueiro dos elfos, um mateiro experiente, e um guerreiro mortal.

- Nós elfos as vezes nascemos com um dom especial – explicou-me Salmakya – Alguns são muito raros, outros são mais comuns.  Eu, por exemplo, consigo comunicar-me com os animais, saber o que eles setem e pensam. O Hannor não teve nenhum dom especial. Se ter um dom é algo raro, ter dois é algo quase impossível, são poucos casos registrados e geralmente um dom acaba bem pouco pronunciado. Já Caomil, é o único da nossa espécia que se tem notícia com três desses dons, sendo dois deles fortes.

- Nossa! – Exclamei. – E o que ele é capaz de fazer?

- Caomil tem o dom da visão. Isso é o que faz nossos melhores arqueiros. Ele enxerga até seis vezes mais distante do que um elfo comum, e isso é uma marca bastante boa, mesmo para quem tem o dom. Também pode ver coisas que se movem muito rapidamente com nitidez, ou ver detalhes em peças pequenas. Seu segundo dom é o do equilíbrio perfeito. Pode correr sobre o gelo, fazer acrobacias com grande facilidade, ou mesmo atirar com o arco sobre um cavalo, como se estivesse a pé. Finalmente, Caomil também possui o dom da recuperação. É o menos pronunciado dos três, aliás, fraco até para os padrões de quem normalmente possui a habilidade, mas permite que ele se cure mais rápido do que a maioria, seja resistente a doenças e venenos, e certamente, ainda é um diferencial.

Nossa conversa foi interrompida pela arena. Um elfo estava fazendo as apresentações:

- Meus caros amigos. Hoje, veremos uma batalha entre Enuen, o elfo, e Mock, o guerreiro. Peço para que se concentrem em seus movimentos, e vejam o estilo de luta único. Não se enganem. Assim como nosso amigo Fedalkyn, Mock também tem mais de cem a nos de experiência em combate e, após a batalha, poderemos trocar experiências e falar como irmãos guerreiros.

Sentamo-nos todos para assistir.

Um bastão foi dado a cada guerreiro. Mock não gostou muito da substituição, mas não pareceu incomodado. Manejava essa arma com bastante facilidade. Enuen vestia apenas uma armadura leve, mas parecia confiante, e movia-se com agilidade, e não parecia temer o inimigo.

Salmakya segurou a minha mão. Ao que tudo indicava, uma ótima batalha estava para começar.

Daniela

Depois do ocorrido, seguimos a passo e rápido e com mais cautela. Mock achou melhor evitarmos as cidades, e dormirmos em barracas. Marcos contou-me que após desmaiar, continuei murmurando para Mock para não matar os outros dois. Contou-me também que pela primeira vez teve medo do ghoul, ao vê-lo tomado pelo seu lado sombrio, comendo o cérebro do Cicatriz.

“Mas, depois que ele devorou tudo, já parecia o Mock que conhecemos novamente. As mãos voltaram ao normal, os braços já não pareciam tão longos, seu olhar voltou ao olhar de um homem. Ele atendeu seu pedido e o Jack e o Baixinho foram poupados. Ainda que aquele grandalhão tenha ficado com o braço quebrado”, foram as palavras de Marcos.

Não houve maiores incidentes, e em poucos dias alcançavamos as florestas do sul. Diziam ser habitadas pelo que chamávamos elfos, um povo sábio e antigo, muito parecido conosco, mas com orelhas pontudas, um porte físico um pouco mais magro e extrema beleza.

Seguíamos pela estrada oficial. Ao nosso redor, a mata era fechada, com pouco espaço entre as árvores. Samambaias diviam espaço com palmeiras e bromélias. Víamos trepadeiras em algumas árvores. Alguns bichos as vezes apareciam rapidamente, como as capivaras. A noite, saíamos da estrada e montavamos acampamento, ouvíamos o coachar de sapos e o som de alguns macaquinhos.

Foi no amanhecer de um dia, que nos deparamos com o nosso acampamento cercado. Marcos estava fazendo a guarda, e conversava com um deles. Era um homem alto, de cabelos longos e escuros e uma aparência extremamente bela. Notei que os guardas pareciam com ele, tanto no porte físico, quanto na beleza.

- Estes são Jorge e Lucas – disse-me Marcos – capitães dos elfos da floresta. E disseram que nós devemos acompanha-los até a Druida Mestra da região, chamada Daniela.

- É um prazer conhece-los – eu disse – mas estamos com bastante pressa. E não vamos incomodar. Só queremos ir até as terras do Sul, encontrar outros de seu povo.

O elfo respondeu na língua comum, sem qualquer sotaque:

- É com você mesmo que ela deseja falar, Caldor. E nós estamos aqui para garantir que vocês não farão nenhuma desfeita.

Ouvi a risada gutural de Mock. Os elfos olharam para ele, mas não pareciam assustados.

- Ora, ora… isso é uma ameaça? Vou gostar de uma boa briga, para acordar. – disse Alexandre.

- Acalme-se, amigo. – disse Marcos, estendendo a mão. – eles vem em paz, e nós os seguiremos em paz também. Caldor, acho que devemos atender ao pedido deles.

- Bem, quem sou eu para negar um convite de alguém tão importante? – disse sem ter a menor noção da importância real de um Mestre Druída.

Nós iriamos mesmo ter que encontrar com elfos, mas não esperava que fosse tão cedo. Essa mata era longa, e diziam que os altos elfos encontravam-se muito mais ao sul. Eu estava certo quanto ao local aproximado da cidade deles, mas me enganara quanto a extensão de seu território.

O elfo falou alguma palavra mística, e a caminhar pelo meio da floresta tornou-se uma tarefa extremamente fácil. Não precisávamos afastar árvores ou arbustos, pois eles pareciam ter dado lugar para nós passarmos. Quando olhavamos para trás, a floresta ainda parecia impenetrável.

Caminhamos dois dias a passos rápidos, até chegar na cidade. Era uma cidade linda, que misturava construções em madeira, com a própria floresta. Num dos cantos, havia uma depressão profunda, de onde descia uma cachoeira, dando num lago de águas muito cristalina. Era possível ver um altar, naquela parte. Não se viam crianças na aldeia. Todos pareciam jovens, entre dezoito e trinta e cinco anos. Todos belos, com os mesmos cabelos longos. As orelhas pontudas de alguns as vezes despontavam em meio aos fios.

Fomos conduzidos a uma casa muito maior do que as outras, mas lembrava um palácio. Ela era alta, finamente decorada. Havia uma fonte na entrada, com água igualmente transparente, decorada com a estátua de três guerreiros, extendendo as mãos um para o outro.

Entramos na casa, e fomos parar em frente a uma espécie de sala de trono. De pé, estavam os dois governantes, um homem de trinta anos e barbado (e era muito raro ver alguém de barba) e uma mulher linda, de cabelos curtos, pretos, com um olhar felino tão verde quanto as folhas da região.

- Caldor! – disse com alegria, correndo e me abraçando – meu Deus, é você mesmo?

Correspondi ao abraço, e ela então olhou meu rosto. Percebendo minha confusão, ela se afastou tímida, e falou.

- Meu, Deus, o que fizeram com você?

- Desculpe-me. Não consigo me lembrar. – disse com sinceridade. O olhar dela entristeceu.

- Eu sou Daniela, alta druída. – Disse apresentando-se para mim e para os outros. – E sentado naquele banco está Hannor, meu irmão.

- É um prazer conhece-la. – disse Marcos com uma reverência. Mock só balançou rapidamente a cabeça concordando.

- Estávamos a sua espera, Caldor. Ouvimos falar de sua viagem. O que traz vocês até aqui?

- Nosso amigo precisa de algumas memórias – disse Marcos – e quem melhor para ajuda-lo do que sua antiga tribo?

A declaração de Marcos não me pegou de surpresa. Já havia reconhecido a grafia dos elfos na inscrição do cadeado e do baú e, portanto, já deduzira que eu estivesse por aqui.

- Será um prazer ajudar. – disse Daniela, visivelmente contente – venham, vou mostrar os seus aposentos.

Hannor falou então pela primeira vez:

- Mock. Não se sinta constrangido em meio ao nosso povo. Aqui sua fome não chegará por todo tempo que ficarem. E os elfos não tem medo de magia, seja ela necromante ou não. Mas solicito que me acompanhe, pois temos muito o que discutir.

- Meu irmão é capitão da guarda – explicou Daniela. – Ele comanda os Fedalkin, nosso exército de elite. E gostaria de trocar experiências com Mock.

No dia seguinte, Daniela acompanhou-me até o templo. Descemos por uma longa escada, feita de troncos redondos. Lá embaixo, havia uma espécie de fonte, mas no lugar da água, havia somente terra. O chão da construção era feito de tábuas, e uma parte dele extendia-se por sobre o lago, dando uma vista privilegiada. No fundo, viam-se carpas coloridas.

- Não acredito que seja incapaz de lembrar disso aqui. – Disse-me Daniela. – Você mesmo ajudou-nos a construir esse lugar. Este lago agora para nós é sagrado, e alguns elfos mais sensíveis vem até aqui para concentrar-se no futuro.

- Me parece familiar, não posso negar. – respondi – mas não consigo.

- Bem, é aqui que começamos o ensino de magia de qualquer elfo. Vai ser engraçado dar essa aula à você, já que foi você mesmo quem criou esse método.

- Pensei que elfos fossem ligados à magia – disse.

- Sim, nós sempre fomos. Mas antes de sua aparição, tínhamos apenas a nossa magia natural, sem nenhum tipo de estudo. Você nos ensinou a teoria e a controlá-la.

- Há quantos anos foi isso? – perguntei.

- O primeiro ensino foi para a minha avó, a mais de mil e duzentos anos.

Aquele número me assustou. Eu já sabia que era mais velho do que julgava, mas mil e duzentos anos? E pelo que ela falou, eu já era experiente naquela época. Quantos ano será que eu teria?

- Venha. Vamos começar com o primeiro ensino.

Aproximou-se da terra e disse:

- Esse é nosso terrário. Aqui no centro, colocarei essa semente. É de uma árvore. Cada mago aqui, tem uma árvore, que indica sua instrução em magia. Irei mostrar a sua depois. É uma árvore sábia e antiga. Você deve se concentrar, sentir a semente, e desejar doar parte de sua vida a ela, para que ela cresça.

Fechei os olhos e me concentrei. Pensei que seria muito difícil, mas assim que comecei, percebi que estava enganado. Em poucos segundos, sentia a semente sob minha mão. Sentia a terra ao redor dela. E sentia que pulsava com vida. Daniela posicionou-se ao meu lado, e segurou meu braço comigo. Pude sentir seu delicado perfume de flores e senti meu coração se acelerar.

- Agora, concentre-se Caldor. – sussurou em meu ouvido – Sinta a semente, sinta a vida. E pense que ela deveria crescer, compartilhe com ela o desejo de se desenvolver, de crescer também.

Concentrei-me, e claramente me veio a cabeça a imagem da semente se abrindo, de um arbusto saindo, e de uma flor desabrochando. Senti a energia correr por meu braço de maneira suave, e atingir a semente.

- Abra os olhos. – disse-me Daniela, com sua voz suave.

Ao abrir, precebi estar diante de uma flor vermelha, aberta, tal como eu havia imaginado.

- Não era uma árvore. – constatei. – e que bela flor.

- Não, não era. – Ela ainda estava muito próximo de mim, e seu hálito tinha um aroma suave. – A sua árvore já foi plantada. Os alunos levam meses para realizar essa lição, e você fez agora, em poucos minutos. Acho que não será difícil dar um jeito de em você. E sorriu.

Ao ver o sorriso, olhei em seus olhos, e falei em élfico, sem sotaque.

- Salmakya.

Ela olhou-me espantada, sorriu e me beijou. Correspondi ao seu beijo com alegria: ela era minha primeira lembrança.

Fuga

Ainda ficamos um dia inteiro na cela. Marcos voltou a ficar comunicativo, e conversavamos algumas amenidades. Nenhum de nós queria falar sobre a prisão e o fato de sabermos que Mock estava do lado de fora era muito reconfortante.

Durante a noite, ouvimos a porta abrir silenciosamente. Era Jack. Ele caminhou até Marcos, que já dormia profundamente.

- Frei… frei… – disse chacoalhando, Marcos.

- É melhor você esquecer, amigo. – eu disse – o Marcos quando dorme, morre por algumas horas.

Ele caminhou na minha direção. Chegando perto, vi que possuia uma pequena ferramenta improvisada. Aproximou-se das correntes que me prendiam, e colocou a ferramenta nas fechaduras.

- Eu vou soltar vocês dois. Depois, saiam daqui. Não tenho muito tempo. Seu amigo está lá fora, e está estranho. – Ao dizer isso, ouvir um “click” no interior da primeira corrente, e ele a abriu. – Prometa-me que o seu amigo não vai fazer mal ao grandalhão. Ele é como um pai para mim.

- Bem, isso não posso prometer – eu disse com sinceridade – entretanto, posso prometer que irei fazer o possível para que ele não o mate.

Ele balançou a cabeça concordando.

- Isso basta.

Outro click. Eu estava completamente solto.

- Você consegue carrega-lo? – disse se referindo ao Marcos. – como irá fazer?

- Deixe comigo. – respondi.

Ele soltou as correntes e saiu rapidamente do quarto. Por azar, no lado de fora, cicatriz o esperava.

- O que você foi fazer no quarto dos dois? E como entrou lá? Você não tem a chave.

Ouvindo isso, fiquei quieto. Os próximos momentos eram decisivos. Foi então que tive uma idéia. Desejei a presença do meu bastão. Subitamente, lá estava ele, na minha mão.

- Eu… eu fui falar com o padre. Precisava me confessar. – respondeu Jack.

- Sabe o que eu faço com garotos que falam demais, não sabe? – disse isso, sacando a faca.

Enquanto isso, eu chacoalhava Marcos, que dava os primeiros sinais de que estava acordando. Marcos começou a murmurar algo sobre a igreja. Então, tive uma idéia. Segurei-lhe fortemente no braço e cochichei em seu ouvido

- Prepare-se para correr. A igreja está pegando fogo, e ele logo chegará aqui.

Marcos arregalou os olhos e assentiu, dizendo.

- Está bem. Tomara que consigamos salvar o relicário. O bispo diz que no interior dele estão os pertences do próprio Solomin.

No lado de fora, Jack argumentava:

- Calma, Cicatriz, você me conhece. Sou eu, o Jack, ok?

O baixinho passou o dedo na lateral do rosto de Jack, e colocou na boca.

- Que tipo de pessoa sua no escuro, numa noite fresca como essa? – falou. – Alguém que está mentindo. Você é bom nisso, garoto, mas ainda não é tão bom.

Dizendo isso, golpeou Jack com um movimento rápido, na perna. Não queria mata-lo, apenas puni-lo. Jack caiu no chão, gritando, e isso acordou o Baixinho.

- O que está havendo? – gritou do quarto.

- Eu cuido disso. – repondeu, Cicatriz.

- Qual é, Cica. Não maltrata o garoto. – gritou novamente do quarto.

- Eu cuido disso, já falei. Volte a dormir, vou ver como estão os presos.

Ouvindo isso, me coloquei na frente da porta, e estiquei meu bastão na altura da cabeça do bandido. Agora, teria que confiar no que aprendera. Quando ele abriu a porta, desejei com todas as minhas forças que o bastão brilhasse intensamente.

O bastão atendeu. O brilho de mil tochas iluminou o local, com intensidade tal que despertou até a atenção de Marcos e do grandalhão no outro quarto. Cicatriz começou a gritar:

- Meus olhos! Bruxaria!

Dei um golpe nas mãos dele e o desarmei. Marcos, após o clarão, gritou:

- É o fogo! fogo na igreja!

E saiu correndo, sonâmbulo. Tropeçou na pequena mesa da sala. Sobre ela estava a bainha da faca, e ele segurou como se fosse preciosa. Gritou para mim:

- Bispo! Estou com o relicário! Corra!

O grandalhão saia do quarto armado com um machado. Viu Jack no chão e o frei com a bainha da arma. Pelo seu olhar, deduziu que quem agredira o garoto foi o frei. Correu com o machado na direção dele. De onde eu estava, pude fazer pouco, cicatriz começava a se recuperar do clarão, e tive de bater nele com o bastão.

O frei estava parado, estático. Provavelmente começava a despertar do sonho, sem entender o que ocorria.

Foi então que Mock apareceu. Arrombou a porta com um chute forte. Estava sem elmo e sem luvas, e com um olhar diferente do que eu já havia visto. As garras estavam afiadas, e a boca exibia uma série de dentes, horrendos e afiados. Estava com fome.

O grandão o atacou. Mock segurou o machado em movimento e freou o golpe, numa demonstração impressionante de força. Num outro movimento rápido, segurou o braço do grandalhão e torceu. O membro quebrou imediatamente.

Eu gritei:

- Mock! Não! Esse aqui!

Apesar da frenesi, o ghoul entendeu. Seus braços estavam alongados e percebi que agora corria de quatro, a grande velocidade. Antes disso, porém, o baixinho, que atendia pelo nome de Cicatriz, sacou uma faca com a mão esquerda, que estava escondida na parte de trás da calça e me atacou. Mal tive tempo de perceber o que ocorria, mas ele me atingiu no pescoço. O sangue jorrou – ele acertara um ponto mortal, usando sua mão canhota.

Caí no chão, e Mock já estava lá. O sangue ainda escorria. O resto, ocorreu muito rápido, enquanto eu perdia os sentidos.

Mock estava sobre o Cicatriz, que ainda lutava. Ouvi o som da faca do bandido penetrar a carne do ghoul, que aparentemente ignorou o fato. Vi as garras do ghoul segurando a cabeça do baixinho. O corpo dele cai ao meu lado. Vejo o ghoul debruçado sobre ele.

- Cérebro. – disse Mock.

Foi a última fala que ouvi, antes de desmaiar.

Jack

Pude conversar um pouco com Marcos, mas ele estava estranhamente silencioso. Não falou sobre o incidente com Jack e, quando eu lhe perguntava sobre Mock, simplesmente falava para termos fé em Deus, e que tudo daria certo.

Ao entardecer, o garoto voltou ao cativeiro. Era difícil precisar que horas eram, pois a sala ficava muito escura, com a luz entrando apenas pela fresta. Ele entrou no quarto, com comida enrolada num pano e uma jarra, e olhou para Marcos com um misto de medo e curiosidade.

- Trouxe pão e leite para os dois. É bem mais do que eu deveria ter trazido. – disse, diretamente para o frei.

- Obrigado – respondeu Marcos.

Ao perceber que o frei não fazia nenhum outro comentário, Jack continuou:

- Seu guarda-costas está lá fora, desde ontem. Chegou pouco depois do Cicatriz e do Baixinho. Tentei cobrir os rastros e desvia-lo para outra direção, mas foi inútil. Isso nunca havia acontecido antes. Seja lá quem quer que tenham contratado, é muito bom. Só não entendi porque ele ainda não os tirou daqui. Do jeito que está armado, poderia ter nos rendido durante à noite.

- Ele não é nosso guarda-costas – eu disse – é um amigo. Pude perceber que você não gosta do que está fazendo, por que compactua com os dois?

O garoto balançou os ombros. Pensou um pouco e completou:

- Eles me dão casa e comida, eu acho. E, desde que meu pai morreu… – e nesse momento olhou para o Marcos, como se o frei fosse revelar alguma coisa – são eles que cuidam de mim.

- Quantos anos você tinha? – Marcos perguntou

- Cerca de doze. Meu pai foi colega do Baixinho num navio. O grandão é feio, mas tem bom coração. Quando eu tinha uns dez anos, o Baixinho conheceu um homem conhecido como Mágico, que conseguia fazer truques, como fazer desaparecer pequenos objetos. Eu me interessei por eles, e ele os ensinou para mim. Achei tudo muito legal, e percebi que eu tinha jeito para a coisa. Depois de um ano, o Baixinho resolveu aproveitar meu talento para roubar as pessoas. Estávamos tendo um bom lucro, e eu me divertia, quando meu pai descobriu. Ele brigou comigo, discutimos muito e alto, pois eu ganhava dinheiro, e gostava daquilo. Na manhã seguinte, antes de sair, ele falou para eu pensar, e me perguntou porque eu estava fazendo aquilo – nesse momento, olhou longamente para Marcos. – Nesse dia, ele saiu de casa, pegou um navio, e nunca mais voltou. Perguntar o que eu estava fazendo, foi a última pergunta que ele fez a mim. Tempos depois, descobrimos que ele havia morrido, e de um jeito bastante patético. Não sei porque, mas acabei me culpando, achando que ele havia morrido de desgosto, e a viagem ou a causa da morte, havia sido apenas uma desculpa.

- Engraçado você dizer que o grandão tem bom coração – comentei acidamente – segundo o Cicatriz, ele faria nosso amigo de mulher e teria prazer de matar nós dois.

O garoto sorriu.

- Duvido muito. Ele mataria em batalha, ou talvez atordoasse e capturasse vocês, mas matar a sangue frio, duvido muito. Entretanto, é do Cicatriz que vocês devem ter medo. Ele sim, é perigoso. Muitos subestimam o seu tamanho, mas ele é muito rápido, não só com a espada e em todos os seus movimentos, mas também tem a mente afiada. E ele tem poucos escrúpulos. Foi ele que começou a gangue, já esteve envolvido em crimes mais sérios.

- E, por que está nos contando tudo isso? – perguntei.

- Bem… por dois motivos. Primeiro, porque realmente não concordo com esse sequestro. Vamos ficar realmente encrencados, caso sejamos pegos. Furtar velhas senhoras é uma coisa, capturar um homem rico e seu colega da igreja é outra. Segundo, porque está na hora de conhecer novos ares, e vou fazer isso longe dos dois.

Marcos olhou fundo nos olhos dele. O garoto acompanhou o olhar. Então Marcos segurou-lhe nas mãos, balançou a cabeça concordando enquanto dizia:

- E terceiro?

O menino pareceu desamparado, e então falou, com certa dificuldade:

- E terceiro… porque… ontem… você falou como meu pai… e pude perceber que no fundo não quero tudo isso. A forma que você perguntou foi… assombrosamente parecida. E, pode parecer loucura, mas acho que libertar vocês e sair daqui, vai me libertar desse peso na consciência também.

Dizendo isso, Jack saiu rapidamente pela porta, envergonhado, e a trancou. Ouvimos os outros dois perguntando a ele porque havia demorado tanto na nossa sala, e ele disse que preferiu se certificar que nenhum de nós tinha nenhum ferimento mais grave, e que não estávamos morrendo.

Marcos sorria em seu canto e, enquanto Jack argumentava com os bandidos do lado de fora. Virou para mim e falou:

- Muito bem… muito bem… o garoto está crescendo.

Cativeiro

O grandalhão me apagou logo depois da captura, acordei algumas horas depois, com os braços e pernas amarrados, vendado, na traseira de uma carroça. Era possível sentir o balançar e as pedras do caminho, que parecia ser uma das estradas secundárias. Havia um cheiro forte de trigo e provavelmente haveria sacas conosco na carroça.

- Marcos. – falei.

- Estou aqui, Caldor – o frei parecia tranquilo. – Desculpe no quarto, não me lembro de nada do que ocorreu. Eu estava dormindo.

- Como vamos sair daqui? – perguntei. – Será que Mock nos viu?

- Bem, nosso bom Deus sabe o que faz. Mas não custa torcer para que Mock também saiba.

Algumas horas depois, a carroça parou. Um dos bandidos foi até lá falar conosco:

- Senhoras, eu sou conhecido como Cicatriz, disse o mais baixo, com cara de inteligente. E meu colega bonito ali é chamado de Baixinho – falou referindo-se ao homem grande, da cicatriz. – Daqui a pouco, vamos passar por um dos postos policiais, e colocaremos vocês dentro de dois sacos de trigo. Se algum dos dois fizer alguma gracinha, vocês morrem, estamos entendidos?

Balancei a cabeça que sim. Eles nos amordaçaram e nos colocaram dentro das sacas. Jogaram outros sacos por cima. Os policiais inspecionaram a carroca, e pouco depois estamos em movimento novamente. Passaram mais algumas horas, até que nos descarregaram numa cabana.

Meus corpo todo doía, pelas várias horas na posição estranha deixada pelas cordas. Os de Marcos estavam bem vermelhos, mas ele mantinha a serenidade, sem reclamar da dor. Dentro da cabana, nos prenderam em um quarto com janelas, uma parede e portas reforçadas. Éramos presos a parede por correntes, pelo tipo de estrutura, parecia ser uma espécie de delegacia ou prisão abandonada. Do lado de fora, pude ouvir uma conversa. Havia um terceiro integrante na quadrilha, alguém com voz de menino.

- Jack, você cuida dos dois – disse cicatriz, o líder da gangue.

- Chefe, por que não voltamos ao roubo? Um seqüestro? Não acha muito arriscado?

- É por isso que você só cuida dos dois, e nós fazemos o serviço sujo. Além disso, o mercador ali é uma bolada, e das grandes. O padre deve valer alguma coisa e, se não valer, o Baixinho vai gostar de faze-lo de mulher e depois dar cabo dele. Vamos ter mais dinheiro do que em mil roubos. Cansei de pegar colares e anéis de madames.

- Mas…

- Nada de mas! E sem gracinhas, entendeu? A polícia não vai querer saber se você concordou ou não com o plano. Se você está aqui, está tão metido nisso quanto nós dois. Agora, vá encobrir os rastros, e deixar trilhas falsas. O guarda-costas deles deve estar atrás de nós, e se você continuar choramingando, ele chegará aqui em poucas horas. Então, faça algo de útil, e vá cobrir os rastros. Depois, prepare aquela sua sopa para nós, e sirva um pouco para os presos.

- Está bem.

Dizendo isso, ambos saíram da casa. Tentei gritar mas, como já imaginava, foi em vão. A única abertura através da janela apenas exibia um campo de trigo, e certamente estaríamos a quilômetros da civilização mais próxima. Marcos ficava quieto, e as vezes fechada os olhos para orar.

Horas depois, o garoto estava de volta. Ouvi o som de pratos, e logo comecei a sentir um agradável aroma de sopa. Ele reclamava da vida enquanto cozinhava, e Marcos parecia atento ao que dizia. Na maior parte, era reclamação dos serviços domésticos.

Pouco tempo depois, ele entrou na sala. Serviu a sopa para mim, e então para Marcos. O frei pegou o prato, e olhou profundamente nos olhos do rapaz. Então, falou pela primeira vez desde que entramos na cabana:

- Por que faz isso, meu filho?

Foi uma única frase, uma única pergunta. O garoto olhou assustado, entregou o prato e saiu as pressas. E não pude deixar de notar: ele estava chorando.

Colônia

Mock havia caçado um cordeiro. Claramente, ele caçara para mim e para Marcos, já que quando perguntamos, ele informou que já estava alimentado.

A viagem seguiu tranquila nos dias que se passaram. A presença de Alexandre, um cavaleiro fortemente armado, geralmente espantava os bandidos comuns. A maioria dos cidadãos tinha recursos para comprar apenas peças de couro, quando muito, uma espada longa. Alexandre, com sua formidável armadura completa e sua espada de alta qualidade, era uma ameaça séria a qualquer um que se aproximasse. Como ainda estávamos em Hoor, os comerciantes e nobres locais geralmente encaravam a presença de Mock como sendo a do meu guarda-costas. O povo comum, imaginava que os serviços de guarda eram para Marcos, que era recebido com alegria por praticamente todos os cidadãos humildes.

Nos aproximamos de um vilarejo. Não tinha nome e, quando perguntamos, apenas nos informaram que era a colonia da família Madeiros. Colônias assim eram comuns na região. Geralmente eram iniciadas por uns poucos integrantes de uma família e, com os anos, outras pessoas se agregavam. Algumas vindas das cidades, que se casavam com os colonos locais, outras que encontravam no local um lugar seguro, onde poderiam começar suas novas terras. Não importava o motivo, a colônia já possuía um tamanho considerável, e não tardaria até que o rei declarasse aquele local um vilarejo oficial, colocasse por lá um prefeito, e aplicasse sua política de impostos. A vila ganharia com isso uma guarda local, e um ponto no mapa.

Alexandre não entrou no local. Alguns metros antes da vila, ele parou e disse que montaria acampamento.

Entrei com Marcos numa pensão, que era administrada por uma velha senhora e sua filha. A moça recém casara com um guarda local, e estava grávida. Ficou muito emocionada ao ver Marcos, e logo pediu uma benção para si e para a criança.

- Vai ser um menino, lindo. – disse olhando para a moça – e através dele virá o orgulho de sua família.

Ouvindo isso, o sorriso da moça encheu-se de alegria.

- Tomara que você esteja certo, frei. Meu marido sempre quis um filho varão, para que ele pudesse servir o exército, e um dia, quem sabe, se tornar um cavaleiro.

- O destino as vezes nos reservas boas surpresas. – disse Marcos, o que a mulher encarou como uma afirmação de suas palavras – qual será o nome dele?

- Se for homem, iremos chama-lo Adamastor. E se for menina, daremos o nome de Ursula, em homenagem a minha falecida sogra.

Jantamos na presença das duas, e de mais um hospede. Era um mercador de passagem, junto com sua esposa. Ficamos no último quarto da casa, improvisado no segundo andar da casa, uma espécie de sótão. Uma janela foi improvisada e tenho que admitir que o local ficou bem aconchegante.

- A escolha dessa estalagem não foi por acaso, meu amigo. Chegará o dia em que eu não estarei mais aqui, e que você terá que olhar por essa família. O jovem Adamastor lhe entregará o que tem de mais precioso, e peço para que você cuide bem do que ele lhe entregará.

- Marcos, do que você está falando?
- Ainda não sei ao certo. Mas essas certezas tem ficado cada vez mais freqüentes, e eu simplesmente sei que você terá esse papel.

Dei de ombros.

- Bem, se no futuro algo assim ocorrer, terei prazer em ajudar. – disse com sinceridade.

Dormimos pouco depois. A noite estava sendo tranquila, até que acordei com um grito. Reconheci a voz como a da filha da estalagem. Ao meu lado, Marcos ainda dormia como um anjo.

Passos pesados andavam pela casa, e ouvíamos as outras portas sendo abertas bruscamente, houve o som curto de uma briga e pouco depois a mulher do comerciante gritava em desespero.

- Marcos acorde! – gritei.

- O que? Ahn? – disse, sem sequer abrir os olhos.

- Marcos, acorde! Chacoalhei com mais vigor, a estalagem está sendo atacada!
Ele abriu os olhos, e disse sério:
- Qual é o problema com a Primavera? Ela está mugindo porque está prenha, vejo isso mais tarde… – fechou os olhos e voltou a se acomodar.
Se eu planejava uma fuga, era tarde demais. Dois homens bateram a porta. Eram grandes e fortes. O maior deles tinha um rosto parcialmente desfigurado e, ao me ver, sua feição torta deu um sorriso estranho.

- Achamos. – falou, desenrolando uma corda que trazia na cintura – e tem mesmo companhia. Levamos o padre ou matamos ele aqui?
- Vamos levar – disse um homem baixo, igualmente forte, mas com um olhar inteligente, que segurava uma faca, ensanguentada. – ele é da igreja, deve valer alguma coisa.
Nesse momento, desejei ter alguma arma para bater no bandido e o ataquei. Fiquei surpreso pois, quando vi, meu golpe tinha sido dado com meu bastão. A arma apareceu em minha mão, na velocidade do meu pensamento.

Mas eu não era forte o bastante, e nem sabia manejar o bastão com habilidade suficiente. Os bandidos também eram lutadores treinados e a surpresa me fez dar um golpe torto, pouco balanceado. O homem irritou-se e devolveu-me um soco poderoso, que me deixou tonto imediatamente. O baixinho logo correu para trás de mim, e facilmente me dominou.

- Ora, termos um herói. – disse o homem desfigurado, enquanto me amarrava.

Nesse momento, o frei sentou-se, abriu os olhos, e disse, com muita doçura:
- Crianças, comportem-se! Ou então o titio Marcos não lhes dará doces. Sentem-se vou lhes contar uma história… – e dizendo isso, deitou-se novamente e se aconchegou nas cobertas.
Os bandidos se entreolharam, e gargalharam ruidosamente. Nunca prender duas pessoas importantes havia sido tão fácil.

Conversa com Marcos

Foi numa manhã do terceiro dia de viagem, que interroguei Marcos a respeito de Alexandre. O guerreiro havia saído para caçar, mas não nos dizia o que. O sol ainda não havia nascido, mas os sinais de sua chegada já eram claros no horizonte.

Estavamos na região conhecida como a Grande Planície de Darian, uma área descampada, enorme, e gramada. Aqui, andavamos por estradas e os cavalos seguiam a um bom passo. Facilmente cobríamos quarenta quilômetros num único dia. Não tinhamos pressa e poupavamos os cavalos.

Marcos, apesar da extrema dificuldade, sempre acordava muito cedo. Ele ainda estava meio sonolento, mas não pude esperar esse período passar para questiona-lo. Fazia algumas horas que Mock estava fora, e provavelmente ele estaria retornando em breve.

Marcos recolhia uns gravetos para montar uma fogueira, num ritmo extremamente lento.Murmurava alguma coisa, que parecia ter ritmo. Constantemente tropeçava ou cambaleava ao caminhar, e muitas vezes o fazia com olhos entreabertos.

- Estou realmente preocupado em viajar com o Mock. – comentei casualmente – Afinal de contas, ele não é uma criatura natural, é produto de algum tipo de magia, algo negro e sombrio.

- Caldor, meu amigo. – Disse, e parou para pensar um pouco. Encarou um pouco o vazio e bocejou. Depois chacoalhou a cabeça e falou: – o que você perguntou mesmo?

- O Mock, estou preocupado pois ele me parece ser produto de magia negra. Como sabemos se ele é realmente consciente dos seus próprios atos?

- Acha que estaríamos aqui, vivos e respirando, se não tivesse consciência?

- Bem, nada garante que ele não esteja sendo guiado, ou seguindo ordens de alguma consciência ainda mais forte que ele.

Depois de longos segundos meditando, ele respondeu:

- De quem? Dos necromantes que ele estripou?

- É, concordo que essa não é minha melhor teoria. Mas, fico preocupado porque não sabemos até que ponto ele pode controlar a natureza morta-viva dele. Estou desconfiado que a dieta misteriosa possa envolver seres humanos.

Essa desconfiança não era completamente infundada. Mock fazia muito segredo à respeito disso, e ouvi alguns casos de gente encontrada morta perto de Hoor, em condições animalescas. Eram geralmente bandidos e gente sem escrúpulos.

O delegado da cidade veio me avisar, pois as pessoas geralmente eram encontradas em regiões afastadas, como minha fazenda e fazendas visinhas. Algumas eram simplesmente esfaqueadas, mas os casos mais graves envolviam cabeças abertas e corpos sem cérebro.

- Na verdade, meu amigo, também me preocupei a princípio. Mas minha intuição diz, e aprendi a não desconfiar dela – bocejou longamente, e novamente olhou o vazio – onde eu estava? Ah sim, na minha intuição. Ela diz – e começou a falar numa voz de quem antecede outro bocejo – que o que há mais negro dentro de Mock seja sua própria personalidade, não sua forma.

- Bem, eu não nego essa possibilidade. Mas devo admitir que temo, não pela natureza que conhecemos, mas pela que desconhecemos. A que se manifesta agora, nesses momento de caça.

- Amigo, vou ser sincero. Também temo um pouco por isso. Rezei pedindo iluminação, e quando o faço, sinto meu coração acalmado, o que interpreto como um sinal dos deuses para que eu o aceite.

- O fato – completei – é que se ele resolver nos atacar, provavelmente não há nada que possamos fazer. Ele é mais ágil, forte e treinado do que nós dois, e nos mataria antes mesmo que víssemos o que ocorreu. E sem ele, não poderemos seguir viagem, pois ele é de longe o mais experiente de todo o grupo.

- Bem, teremos que viajar uma ou duas semanas, até a floresta dos elfos. – continuei – ouvi dizer que a magia deles é poderosa e, se eles o aprovarem, talvez possamos dar crédito… Marcos?

O frei havia fechado os olhos, mas os abriu rapidamente e assustado, ao ouvir o próprio nome:

- Hã, sim? Elfos! Claro, estamos indo em direção aos Elfos.

Deixei passar, eu não esperava sinceramente uma opinião sobre os elfos, só estava externando minha própria preocupação, depois perguntei um assunto que realmente me incomodava:

- Supondo que a dieta dele seja algo realmente selvagem, como serem humanos. Não estaríamos sendo coniventes ao não fazer nada?

- A dieta dos Elfos?!?!? – disse Marcos com genuína confusão.

- Marcos, é realmente difícil falar com você essa hora! – eu sorri. – Não, estavamos falando de Mock!

Ele corou.

- Ah claro, Mock. – Completou corando – Eu me perguntei sobre isso, e o impacto que tenha sobre a Moral. Mas, por outro lado, estamos a caminho de uma transformação verdadeira, da cura de Mock. Iremos orienta-lo num caminho que o impedirá de cometer esse ato por todos os dias que restarem em sua vida, que já dura tempo demais.

- Nesse ponto você está certo. Será que existe mesmo uma cura?

Marcos meditou, mas parecia um pouco mais desperto agora.

- Não sei se a cura como a entendemos, afinal, os deuses trilham caminhos misteriosos. Mas o que sei, é que certamente sua alma precisa de remédio, e essa foi a tarefa a qual fui encumbido de cuidar.

- Certo… assim como… a minha precisa?

Ele concordou com a cabeça. Nesse ponto, eu não era muito diferente de Mock. Ambos estavamos cercados de algo misterioso, e precisavamos de orientação.

Foi aí que percebi a abnegação de Marcos. Eu e Mock estavamos indo por um motivo sério, de nossa personalidade, que nos atormentava. Seríamos arrastados para essa viagem por qualquer um que desse o menor sinal de nos privar desse sofrimento. Mas o que motivava Marcos, não era ir até o templo dos Vinte Freis, ou conhecer melhor a ordem, mas o desejo de nos ajudar. E esse desejo, vinha se manifestando com tudo e com todos, muito antes das visões. Aliás, talvez até mesmo por isso, seja Marcos, e não outra pessoa qualquer, aquele que as recebeu.

O frei olhou o horizonte num movimento involuntário e o acompanhei. O sol começava a nascer naquela direção, e observar esse momento nas planícies de Darian era visão bela. Mas, uns minutos depois, outra figura surgiu na paisagem, no exato ponto onde Marcos olhava.

Era o cavaleiro, Mock, e trazia consigo a caça.

Preparativos

Mock não era tão descrente quanto se mostrou naquela conversa. Na verdade, após conversar com ele, descobri que a história que me contou, de meu resgate, acontecera a mais de oitenta anos, o que, novamente, dava sinais da minha imortalidade. E isso, logicamente chamou a atenção dele, já que eu não tinha evelhecido uma semana sequer.

Alexandre desconfiava que a mesma magia usada nele fora aperfeiçoada e replicada em mim, uma vez que ele também não envelhecia. Por isso, apesar de me provocar constantemente e me chamar de incompetente em todas as ocasiões em que eu fosse menos apto do que ele (e eram várias), pude notar que ele também estava ansioso pela viagem.

Eram vários os preparativos que tive que fazer. Primeiramente, avisei minha futura ausência à câmara comercial, que reagiu muito mal a notícia. Ficaram ainda mais ultrajados quando comuniquei que Juca assumiria a fazenda. “Ele é inculto”, dissera-me um, “ultraje!” comentou outro. A verdade, é que muitos se sentiam muito mais preparados para assumir meu império, e ficaram com inveja, afinal dispesaram a mim longos anos de falsas amizades.

Outros, fingiram alegria, como pretexto para se aproximar da fazenda e do próprio Juca, certamente na tentativa de arrancar-lhe as terras depois, como já haviam tentado fazer comigo. Isso seria praticamente impossível, graças à uma artimanha legal que fiz, como eles descobririam mais tarde.

O fato é que, da noite para o dia, Juca tinha se tornado um dos homens mais poderosos de toda Hoor. E estava apavorado. Tive de ensina-lo diversas coisas, apresenta-lo aos fornecedores, compradores e vendedores de mercadorias.

Quando me perguntavam daquela decisão, contava uma estória que inventaramos: a de que eu estava doente, e que iria me retirar até uma terra distante com Marcos, pois ele ouvira falar que algum membro de um mosteiro distante sabia qual era a cura.

Preparei minha bagagem com poucos itens. Apenas algumas rações secas, que durariam algumas semanas, mas o suficiente para chegar à próxima cidade. Como Marcos adiantou-me que provavelmente dormiríamos ao relento, também inclui lampeão, cordas, barraca, algumas ferramentas, mas nada além do essencial.

Depositei no banco da igreja uma boa quantia em dinheiro. Eles me entregaram uma carta oficial, que permitia que eu, e apenas eu, sacasse em qualquer outra grande igreja aquela quantia. A taxa cobrada, era cinco porcento do valor depositado, mais uma taxa de duzentas moedas por mês. Só ricos podiam guardar dinheiro dessa forma, já que os serviços de Deus sempre foram muito bem remunerados.

Marcos praticamente não se preparou. Levava apenas um saco de dormir, obviamente contando que levaríamos a barraca para ele. Também levou um pouco de comida. Só me fez um curioso pedido, para comprar e deixar em nome dele um terreno, nos arredores da cidade, de um tamanho considerável. O suficiente para uma pequena fazenda.

Comprei à uma distância de uma hora da muralha da cidade, encostado com a estrada. Era um local plano, mas era uma terra infértil, cheia de buracos, pouco adequada para uma fazenda. Quando eu perguntei o que ele plantaria ali, ele apenas me disse que no futuro, serviria para que pudesse cultivar a alma dos viajantes. Eu já havia desistido de entender Marcos, portanto, comprei o local que escolheu. Consegui um bom preço, já que o vendedor também sabia que por ali, nem ervas daninhas cresciam.

Mock, embora tenha aparentado visível mau humor a respeito de absolutamente todos os detalhes da viagem, preparou-se rapidamente. Sua experiência em viagens era notável, e sua orientação foi muito importante para nossos próprios preparativos. Ele também tinha uma boa noção de que cidades pararíamos, onde acamparíamos e quais as estradas deviam ou não deviam ser seguidas.

O único item estranho, que insistia em carregar consigo era uma pá, grande e robusta. “Meu pai sempre dizia, leve sempre consigo uma pá. Você nunca sabe quando ela poderá te salvar”, disse-me.

Ele também não precisava levar alimentos, já que sua dieta como morto-vivo era um tanto peculiar. Quando perguntei o que era, não quis me revelar.

Dessa forma, quatro semanas depois daquela reunião, seguiríamos para o sul, em direção às terras geladas. Começava, então, a nossa jornada.

Alexandre de Mock

Cheguei no final da tarde até Hoor, pouco antes do fechar dos portões. Aproveitei para visitar um dos meus grandes compradores, que havia retornado de viagem. Ele cruza os rios e vende minhas frutas no mercado de Ood e de Sahud.

Também aproveitei para lavrar documentos deixando todas as minhas fazendas aos cuidados de Juca. Acho que ele teria um infarto quando visse os papéis. Meu empregado sabia ler, eu mesmo ensinara. Sorte que ele sabia cuidar das fazendas melhor que eu, já que eu também o ensinara onde comprar, de quem, quanto e quando.

Ao final da noite, dirigi-me discretamente até a igreja. Era meio difícil ser discreto no pátio da Universidade, mas poucos tinham razão para desconfiar de qualquer um que caminhasse por lá durante a noite. Resolvi contar com isso, e andar tranquilamente, como se fosse só mais um estudante da região.

A porta de trás da igreja estava aberta. Ela dava direto em umas escadas, que levavam ao porão. Quando abri, senti o cheiro dos grãos, que provavelmente ainda entulhavam o local. Ao descer, também pude perceber que o chão estava com uma fina camada de trigo, provavelmente, o frei já arrastara parte das doações para fora.

Dei numa porta, tentei abrir mas estava trancada. Bati discretamente e ouvi Marcos coxichar:

- Quem se aproxima?

- Sou eu, Marcos, Caldor.

A porta destrancou. Dentro, havia apenas uma vela iluminando o recinto. Era um subsolo largo, mas apenas um pequeno espaço não estava tomado pelos sacos, que iam até o teto. Marcos colocou nesse espaço uma mesa e algumas cadeiras. Provavelmente seriam usadas durante o dia para as petições de alimentos e registros de quem recebeu o que.

No canto, de pé, imóvel como uma estátua, estava Alexandre. Era uma figura formidável. Uma armadura negra e pesada, cobria-lhe o corpo da cabeça aos pés. Usava pesadas botas revestidas com metal, um montante largo, com a ponta afiada. E um elmo igualmente escuro, com uma plumagem preta, apenas uma pequena abertura em forma de T na parte da frente revelava parte do rosto. Reparei nas laterais do elmo que havia os encaixes para um visor, mas que Alexandre preferira deixar esse acessório de lado para essa noite.

- Alexandre, permita-me apresentar-lhe. Esse é Caldor, o fazendeiro, ele irá conosco…

- O que? Então a ajuda que você havia prometido era de um fazendeiro? – falou com escárnio – Desculpe, Marcos, mas eu esperava alguém com experiência, seja em batalha, ou em medicina, não de um burguezinho qualquer!

- Espere um momento… – comecei a falar, mas Marcos gesticulou para que eu parasse. Então se virou para Mock, sorriu e disse:

- Acontece, amigo, que esse não é um fazendeiro qualquer. Não o reconhece?

Vi os olhos do guerreiro se estreitarem. Se ele realmente me conhecia, estaria frente-a-frente com alguém que poderia explicar mais à respeito do meu passado. Os olhos dele então se arregalaram.

- Não pode ser. Você? Quer dizer… é você mesmo?

- Eu o que? – Perguntei com genuína curiosidade. Alexandre interpretou minha dúvida como um desafio.

- Você estava na masmorra, aquele dia! No dia em que me tornei isso!

Ele retirou o elmo. Parte de seu rosto parecia apodrecido. Então, pude notar que seus olhos eram vermelhos, seus dentes afiados. Ele retirou as manoplas, revelando mãos com unhas afiadas, com aspecto igualmente cadavérico. Sua aparência era horrenda. Saída diretamente dos contos de terror, parecia um zumbi, mas com porte ereto e mais agressivo. Embora eu devesse me assustar por estar na presença de uma criatura tão estranhada, não era isso que me causava medo. Era sua aparência irritada e seu olhar cruel, como alguém que estava ali contra sua vontade, e nem um pouco disposto a cooperar.

- Alexandre… – começou Marcos.

- Naquele dia – Alexandre virou-se para Marcos furioso – Alexandre morreu. Agora sou somente Mock. Um ghoul. Um ser das trevas, um morto-vivo. E esse sujeitinho estava lá, nas masmorras. Só me lembro de ter acordado numa mesa fria de pedra, completamente nu. Alguns magos estavam no local. Eu arrebentei as cordas que me prendiam com os punhos, e espanquei um na face. Foi quando percebi minha enorme força. Outros vieram para cima de mim, mas bati neles com facilidade. Um chute aqui, uma chave de braços ali, os golpes habituais. Feiticeiros e sacerdotes nunca foram mesmo muito bons de briga. – sorriu olhando para Marcos – Então, vi o líder deles. E ele falou “Estou orgulhoso de você, minha criação”.

- Eu… eu estava lá? – Perguntei.

Mock ignorou a pergunta.

- Vi então no que me tornei. E foi então que começou minha sede de sangue. Corri para cima do líder. Mas ele levantou sua mão, e senti uma energia percorrer-me o corpo. Eu estava paralizado, imóvel. Ele se aproximou de mim, e perguntou se eu me lembrava quem era. Tomado pela dor, eu não via muitas chances de escapar. Mas o idiota então ficou ao meu lado, e disse novamente “diga-me, minha criatura, você se lembra quem é?”

O olhar de Mock parecia vidrado, como se estivesse revivenciando aqueles momentos.

- Fiquei furioso por ter sido tratado como uma criatura qualquer, o que foi o erro do mago. A raiva nos alimenta na batalha e renova nossas forças. Eu então respondi: “Eu sei quem sou. Sou aquele que vai matar você”. Puxei a espada do mago, e foi com ela mesmo que lhe golpeei a barriga. Ele me olhou surpreso, e correu em direção a uma mesa e levantou um crânio, em suas mãos. Começou então a recitar algumas palavras ininteligíveis, acho que mágicas. Eu ainda tentava me mexer, e já conseguia fazer com dificuldade. Gritei então o grito de guerra dos guerreiros de Mock, e tentei ataca-lo.

- E então? – perguntei.

- Então, ao ouvir o grito o mago sorriu, e desapareceu. Parecia satisfeito de ter conseguido fugir. Eu então confisquei a sua espada, essa aqui. – disse desembainhando a lâmina – Eu a chamo agora de Matadora. Ela se mostrou ser ter uma lâmina excelente, que nunca perde o fio, e todos a quem ela cortou, morreram. – falou isso com profundo orgulho, acariciando a espada.

- Mas, onde eu estava? – tornei a perguntar.

Ele me olhou com enojado:

- Bem… eu voltei a sala, matei todos os magos que estavam no chão. Um-a-um. Apenas o mago que me mantinha preso, não matei de imediato. Perfurei-lhe os rins, para que agonizasse antes. Em meio aos gritos dele, reparei que havia um corpo, num altar, não muito longe do meu. Se não era você, a semelhança era incrível. Mas você estava muito magro, não achei que pudesse sobreviver. Ferido também. Então levei-lhe para fora e incendiei o lugar, ouvi ainda o mago do rim gritando, durante as chamas. – disse com certo orgulho – Fugi para a floresta,  e preparei uma barca funerária, e te joguei rio abaixo.

- Espere um pouco, mesmo comigo vivo?

- E o que importa? Eu não teria condições de cuidar de você. Você seria só uma carga desnecessária. – olhou para Marcos, num tom de reprovação -  E me parece que você se deu bem, afinal. Depois, não te cremei, cremei? Mas… afinal, o que você fazia naquela masmorra?

- Não faço idéia, eu… não me lembro de nada.

A história de Mock me incomodou mais do que uma história de horror incomodaria alguém. Tentar lembrar dela causava-me uma imensa agonia, uma dor mental inexplicável, de fato, a história só podia ser real, mas eu não estava preparado para desbloquea-la de minha memória. Em todo caso, ela já indicava um caminho, um local onde eu pudesse procurar por meu passado. Era nisso que eu deveria me concentrar.

- Que ótimo – disse Mock, virando para Marcos. – então, você não só nos arranjou um fazendeiro, mas também um desmemoriado? – disse sorrinsdo – Belo trabalho, padre! É por essas e outras que não confio na igreja, só na minha belezinha aqui. – Disse isso dando tapinhas na espada.

Revelações

Ri sonoramente.

- Marcos, é impossível. Se essas cartas fossem mesmo minha, eu teria o que? Uns duzentos anos?

- Bem, talvez então você prefira ler a carta. E note que as duas tem a mesma caligrafia… a sua caligrafia.

- Eu já tinha notado que a caligrafia era parecida, mas é IMPOSSÍVEL. Não sou um elfo, não vivo nas florestas, não posso ser tão velho…

O frei só me olhou, e estendeu o envelope. Peguei-o e dizia:

“Escrevo essa carta para mim mesmo, a pedido de Solomin. Segundo o profeta, estarei confuso ao lê-la.

Sinto informar que não posso somente escrever-lhe, informando a nossa origem, ou tudo que o queira saber. O profeta me garantiu que apenas através de um jornada de auto-conhecimento, nossa memória será restaurada. Apenas, posso lhe adiantar algumas coisas. Você não envelhece e vive a mais tempo que julga e sua inteligência é sua maior aliada na batalha do porvir.

“O cajado que escondi, embaixo do Jequitibá-rosa, junto ao baú, as cartas e as Solom, foi um fiel companheiro, de muitas jornadas. Foi criado pelos elfos, um povo sábio, que te acolheu em um momento difícil, e que te deu o seu último nome. Ele é encantado e só obedece as suas ordens. Você pode pedir para ele se iluminar, ou voltar para sua mão, coisa que ele lhe atenderá prontamente.Você deve ter sentido a energia do cajado e, ao toca-lo, ele torna-se uma extensão de sua própria mão. Isso lhe será útil em vários momentos.

Mantenha-se conectado à natureza. Ela sempre foi sua aliada e sua guia. E confie nos emissários da Ordem dos Vinte, pois eles te orientarão em nossa jornada. As cartas que deixei junto ao cajado, devem ser entregue os druídas, que certamente estarão presentes em seu caminho.

Chamo essa busca de nossa, não só porque somos a mesma pessoa, mas porque mesmo antes de sua atual confusão, eu já buscava compreender melhor minha natureza. Não tema, sua perda de memória é apenas a tormenta. E dias iluminados sempre sucedem a chuva.”

Embaixo havia uma assinatura, na mesma caligrafia do cadeado. Eu desconhecia o símbolo, mas ele me pareceu estranhamente familiar.

Segurei então o cajado e desejei que se iluminasse. O cajado prontamente atendeu, emitindo uma luz branca, em toda sua extensão. Eu nem sequer precisei falar nada, nem uma palavra mágica, nem um comendo. Com um novo pensamento, ele se apagou.

- Isso… é perturbador, Marcos. Quer dizer, como isso seria possível? Magia?

- Acaso você sabe tudo o que é possível? A nossa ciência nem mesmo consegue explicar o que ilumina as estrelas, como você pode não acreditar na verdade, que está estampada em seu rosto? Por acaso, notou algum sinal de envelhecimento nesses anos que está em Hoor, por mínimo que seja?

- Bem… não, mas sou bastante jovem. Que idade você me daria, uns vinte e cinco anos?

- É, não muito mais do que isso. Mas sempre achei estranho seu olhar, amigo. Você não tem um olhar de criança. E nem o talento comercial de um jovem inexperiente.

- Bem, vamos supor que eu considere isso verdade. O que teríamos que fazer?

- O primeiro passo é ajudar Alexandre. Ele precisa encontrar a cura para seu estado de saúde. Para isso, teremos que viajar para longe, para o seu país de origem, as terras gélidas de Mock, ao sul. De lá, partiremos em sagrada missão, para encontrar também o templo dos lendários Vinte cavaleiros, que se tornaram santos, e fundaram a minha ordem. Mas, o que importa, meu amigo, não é o destino, e sim a jornada.

- Bem, isso levará vários dias… as minhas fazendas…

- Suas fazendas ficarão em boas mãos. E não precisará delas, na nossa jornada. E, diga-me a verdade, não gostaria de se livrar da carga de não conhecer quem, ou o que é?

- Preciso pensar, Marcos. Podemos nos ver amanhã?

- Claro que sim. E já prepare-se, pois partiremos logo, antes mesmo do final da semana. Além disso, amanhã, quero que me encontre na minha igreja, a noite. Apareça lá depois dos portões fecharem, quando todos estiverem dormindo. Não faça barulho e vá direto até o porão. Deixarei a porta aberta.

- Por que tanto mistério?

- Porque dentro da igreja, não estarei sozinho. Alexandre estará lá.

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